Pessimismo

A percepção da realidade pode sempre piorar. A oscilação de como percebemos a realidade em termos valorativos é pequena. Não são muitos os picos, os altos e baixos. Toda a percepção da realidade paira sobre uma mesmice irritante, enfadonha e interminável.

As grandes elevações no processo valorativo de julgamento pessoal são raras. Duram pouco, também. Assim, neste marasmo existencial, todo ser que se percebe lutando contra a média implora para que algo aconteça, mesmo com durabilidade ínfima.

Dentre os que buscam alterações no modo de perceber o mundo, há os pessimistas. Os que esperam, procuram, lutam e torcem para que o pico de emoção seja para baixo. Buscam a desgraça, o desamor e o desalento. Afinal, é muito mais fácil perceber uma realidade piorada do que vê-la positivamente. São raros os nascimentos de filhos, sobrinhos, netos e afilhados, as conquistas de premiações, aniversários, casamentos, enfim, os dias para se comemorar algo. Existem muitos dias idênticos, rotineiros e cansativos. Destes dias só se pode esperar mais do mesmo, mais enfado.

Por outro lado, dias comemorativos também são capazes de mudar a forma de ver o mundo. A ansiedade, a expectativa, a busca pela perfeição e todos os planejamentos podem e saem errados. Não há como valorar positivamente tais datas. Busca-se o trágico, espera-se o pior, há torcida por confusão e luta por conflitos. Notícia de terremoto é o ápice da concretização de realmente ter certeza que a realidade não é boa.

Nestas condições olhamos para a estante de livros, mas nenhum nos convida a ler. Os filmes perdem o encanto. A boa música é a vigília de um gato e o vento nas frestas da janela. Garrafas de vinho são abertas, papéis são rabiscados, fotografias são revisitadas. Quando a percepção da realidade piora, ficamos criativos e pensativos, mas não como forma de melhorar a situação. Criar e pensar não ameniza a tristeza. Pensa-se e cria-se sobre a própria realidade mal vivida. O desejo é afirmá-la. Pensa-se sobre a condição pessimista da vida, cria-se como uma ode à péssima vida.

No fim, tudo é um grande marasmo. A realidade é feita de ondas curtas. Criamos movimento nos jogando ao mar. Somos quase todos pessimistas.

escrito para o blog Catando Ideias