A Paixão de Kuyper: uma crítica

Entre os grandes nomes do cristianismo dos séculos XIX e XX, sem dúvida está o do holandês Abraham Kuyper. Seu pensamento percorreu por todas as áreas da vida humana, influenciando não apenas o campo das ideias, mas também a vida de seu povo. Tantos feitos eram resultado uma paixão a ser cumprida. Sobre isso, Kuyper disse:

Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação dêem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.

Esta é a frase motivacional na vida de Kuyper. É interessante observar um pouco de perto os aspectos deste lema de vida, sua validade, pressupostos e consequências.

Em primeiro lugar, Kuyper possui um desejo e uma motivação. A força destes impulsos abrange a totalidade do ser, sua mente e sua alma, ou seja, sua vida. Todo esse sentir interno de Kuyper é logo transformado num dever sagrado. Não há nada que permita uma análise desta passagem da vontade individual para a vontade divina. Estou certo que a maturidade cristã consiste, no campo da vontade, em tornar única a de Deus e a individual. Por outro lado, há inúmeros casos de insanidades decorrentes de pensar-se como cumpridor de vontades divinas. Antigos líderes políticos (e alguns atuais) eram vistos e a si mesmos se consideravam deuses ou descendentes dos deuses. Considerar o cristianismo verdadeiro não torna os líderes políticos cristãos sacerdotes de Deus na terra ou cumpridores de um dever divino.

Desta paixão inicial, decorria um dever de cumprir as ordenanças de Deus. Se for considerado que as motivações de Kuyper eram mesmas divinas, o que Deus o ordenava fazer? Estabelecer as ordens de Deus no lar, na escola e no Estado para o bem do povo. É interessante ver como os cristãos, em geral, observam esta mistura de Deus e Estado. O dever fala de esculpir na consciência da nação as ordens do Senhor. Então, para que a nação renda homenagens a Deus é preciso que, pela força do Estado, a família seja controlada e as crianças também. É novamente o ideal da reforma, que fez Calvino governar Genebra. Essa mistura de calvinismo e política também teve um impulso, o impulso de Calvino foi, de acordo com Rothbard, “a inculcação da mensagem do calvinismo e obediência ao despotismo teocrático que ele havia estabelecido”.

Essa mistura de missão de cumprir o dever divino com poder estatal é responsável por enormes atrocidades. É interessante notar que no dever que conduziu a vida de Kuyper há o dever de inculcar as crianças na escola. O poder do Estado é usado para determinar que a Bíblia entre na escola. Este cristianismo político é aquele que não aceita seus opositores. Calvino foi bem enfático neste ponto, propondo a morte de hereges. O discípulo de Calvino, Beza, também defendeu essa posição.

A posição de Kuyper de não separar os campos da vida humana é interessante, mas há uma finalidade de transmitir um conhecimento para o povo, usando a coação estatal.

Mesmo que exista alguma validade no uso da política para fins religioso-doutrinários, é de espantar que o mote de vida de Kuyper tenha uma falha pedagógica básica. A falha de pensar que conhecer algo leva a fazer algo. Uma nação – e não entrarei no mérito deste critério coletivista de abordagem, visto que nações não pensam, não agem, não realizam comércio, não crêem em Deus, apenas indivíduos são capazes disto – não irá honrar a Deus apenas se tiver consciência das ordenanças de Deus. Conhecer é diferente de realizar algo a partir do conhecimento. Apenas um governo altamente coercitivo possui alguma capacidade de fazer as pessoas agirem de determinado modo. Entretanto, para Deus importa o interior e não o exterior. Fazer o que é correto aos olhos de Deus forçosamente é diferente de fazê-lo voluntariamente. Neste ponto, nenhuma educação ou lei que tenha uma motivação de levar as pessoas a conhecer e a fazer o que é correto possui uma validade final de resgatar o homem da queda.

Se homem caiu e necessita ser resgatado pelo sangue de Cristo, implantar um governo baseado nas ordens de Deus não irá resgatá-los. Eles ainda precisarão reconhecer-se como pecadores e abraçarem a graça concedida na cruz.

Enquanto político cristão, a postura que certamente honra a Deus não está na defesa de determinados grupos, de políticas populistas, de leis de coação a práticas biblicamente condenáveis, mas na demonstração de integridade, pureza, polidez ou, numa linguagem mais bíblica, no fruto do Espírito Santo.

A melhor defesa cristã, por meio da política, é não julgar e condenar os outros, não impor sua cosmovisão, mas defender a liberdade de ação e de consciência. Uma nação que homenageia a Deus é a nação na qual os cristãos conseguem em seu cotidiano realizar suas atividades profissionais. É preciso muito cuidado para não justificar absurdos baseados na fé.

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