Campus da educação, ou educação no campo

Muito se fala de Pierre Bourdieu no universo pedagógico. Seus conceitos de campus e habitus são frequentemente discutidos. Entretanto, a ambiguidade de significado referente ao termo campus nos possibilita pensar em campo de futebol. Este foi o meu ponto de partida para escalar dois times de futebol.

Foi preciso montar dois times, com onze jogadores cada, que defendam posições diferentes. Temos, então, a equipe da Educação Compulsória e Social, vestindo vermelho, e Educação Individual Livre, de camiseta preta.

 

Os vermelhos são:

01 – Platão: capitão e goleiro da equipe, foi o primeiro a defender a educação compulsória e inculcá-la na mentalidade ocidental.

02 – Karl Marx: zagueiro, responsável por grandes lançamentos para os atacantes da frente educacional.

03 – Aristóteles: zagueiro, defende a educação como busca de felicidade para o coletivo. É preciso encontrar um modo de fazer toda a equipe feliz.

04 – Michel Foucault: zagueiro, defende bem, mesmo tendo de usar a tática inimiga do panóptico. “Foucault sempre está te olhando”, ele diz no ouvido adversário.

05 – Jean Piaget: líbero, é sempre usado em diversas posições para argumentar sobre o desenvolvimento equitativo das pessoas ou sobre a interação indivíduo-meio.

06 – Florestan Fernandes: lateral esquerdo, sustenta o jogo enquanto possibilidade de libertação do jogo.

07 – Lev Vygostsky: meio campista, deu bons passes com a ideia de uma educação que leve em conta o contexto do indivíduo e que promova interação com o meio.

08 – Gimeno Sacristán: lateral direito, sustenta a educação obrigatória e sua função.

09 – Paulo Freire: atacante, sempre driblando os que defendem uma educação técnica e alienante.

10 – Pierre Bourdieu: atacante, o gol é uma questão de compreender as relações, ou seja, compreender o espaço do gol (as traves), bem como as atitudes dos participantes (goleiro coçando o nariz).

11 – Gramsci: atacante, a vitória é sempre conquistada, não importando como saia o gol (pode ser de mão). Também defende sabotar o time rival.

 

Os pretos são:

01 – Jean-Jacques Rousseau: goleiro, defende a educação como processo natural do ser humano.

02 – Albert Jay-Nock: zagueiro, entra de carrinho nos inimigos (o Estado).

03 – A. S. Neil: zagueiro, sorridente e com espírito livre, criou seu próprio time de futebol para jogadores rejeitados por outros clubes. Os vermelhos vivem lembrando que a formação dele se deu em seu campo.

05 – John Holt: lateral esquerdo, cunhou o termo unschooling.

06 – John Dewey: meio-campo, educação só é educação com liberdade. É preciso liberdade no meio campo para armar as jogadas.

07 – Ivan Illich: lateral direito, se de um lado se defende uma não-escolaridade, do outro defende-se uma abolição completa da escola.

08 – Maria Montessori: meio-campista, criou um método para o desenvolvimento do indivíduo.

09 – Herpert Spencer: centro-avante, defendendo que os melhores se destacam, deu bons passes para Rothbard concluir. Para ele, os talentos naturais do jogador devem estar à frente do coletivo.

10 – Murray Rothbard: atacante, nunca visto com bons olhos pelos outros times, atacou toda e qualquer iniciação de agressão. No jogo da educação agressão é o que não falta.

11 – Jannine Verdès-Leroux: atacante, é o contra-ponto de Bourdieu. Afirma que o atacante rival não faz muito gols porque preocupa-se com informações irrelevantes para o chute.

12 – John Taylor Gatto: atacante, é novo no time e, além de jogar no campo, também atua fazendo vídeos na internet.

 

Temos, assim, um embate que remonta ao berço da civilização ocidental. De um lado há os defensores de uma educação que transforma o individuo e o permita um convívio com seus comuns. Do outro lado temos os defensores de uma educação pautada nos esforços individuais, visto que a natureza não distribui corretamente os talentos.

Discutir educação é levar em conta todo esse campo. As faltas, os passes errados, os acertos, as finalizações. A partir do hábito de jogar, presente na cultura brasileira, podemos “bater uma bolinha” com os pensadores e críticos da educação e sua função social e individual.

 

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