A sabedoria na greve do transporte coletivo

Quando lemos sobre as greves nos deparamos sempre com a mesma temática. Disserta-se sobre política, trânsito, política, direito, política, ética, política, urbanismo, política, transporte e política. Mas pouco é percebido acerca do modo como os homens vivem. Perde-se oportunidades valiosas em entender um pouco mais sobre como pensamos e agimos. Há um lado bom na greve. Poucos conseguem ver. Para entender como ela proporciona o exercício do cérebro, temos de entender o cotidiano numa grande cidade.

A rotina numa grande cidade é marcada pelo compromisso e pelo comprometimento. Há horário para tudo. Existe uma agenda a ser concretizada. Os estudos, o trabalho, o almoço, a academia, o lazer e as compras são todos adequados à nossa maneira de estruturar nossa vida ordinária. Numa cidade complexa há horários diversos. São infinitos os arranjos.

Entretanto, os arranjos pessoais dependem de condições externas aos esquemas e anseios internos de cada indivíduo. É por este motivo que uma greve, como a do transporte coletivo, torna a vida de praticamente a totalidade dos indivíduos um caos.

A greve, porém, tem um lado bom. A greve nos força a pensar. A greve nos retira do cotidiano. Do estancamento da rotina. Que beleza maior há do que a possibilidade de inventar o novo? De remodelar-se?

As reclamações sobre o trânsito, sobre ter de mudar o caminho para onde quer que se esteja indo, estão permeadas por uma vontade de não mudança. Deseja-se que o universo seja sempre o mesmo, que tudo esteja sempre no mesmo lugar. A realidade não é assim. Quando se contempla o mundo ao redor percebe-se que a todo instante faz-se necessário alterar os planos.

O homem tem a necessidade de organizar o mundo, que por sua vez é caótico. Não entender esta caoticidade faz com que o indivíduo caia em alguns extremos. Em primeiro lugar não há de se relativizar tudo por conta da dinâmica existente. Em segundo lugar, a insistência no controle leva necessariamente ao sentimento de impotência em poder controlar tudo e todos. É este desejo de universo controlado que mais se sobressai quando vemos o horror estampado na face daqueles que ficam desorientados diante de uma situação nova.

Quando uma pessoa amada morre, termina o amor, não se passa na entrevista, na prova ou no exame, o que fazer? É preciso recalcular a rota. Às vezes voltar e seguir outro rumo. Outras vezes basta fazer uma conversão à direita e seguir para o mesmo alvo por outro caminho. Quando uma ponte cai você procura outra ponte, toma um barco, vai a nado ou simplesmente não atravessa. É o mesmo dilema da pedra no caminho, tão popular e banalizado, mas pouco compreendido em sua essência.

A greve dos transportes coletivos é sábia. Mostra o quão estamos viciados em nossos planos e em nos adequar aos planos de terceiros. Mostra ao trabalhador que ele pode não ir trabalhar quando outros fatores o impedirem. Mostra ao patrão que ele não pode contar com todos os funcionários sempre. Mostra a ambos a necessidade de conhecer rotas alternativas.

A greve nos transportes é sábia. Escancara a quem quiser ver o modo como estruturamos a nossa vida. Além disso, mostra exatamente como é a condição de viventes. Mostra que não há segurança nos planos. Evidencia que a condição humana é a de esgueirar-se em meio as tempestuosas adversidades.

Por conta disto tudo, pode-se amar a greve. Ame a greve! Ame quando a vida te forçar a se reinventar. Contemple, mas não a inércia da pacata existência que te retira a possibilidade de escolher, errar, acertar, mudar, viver.

 

 

Escrito para o blog Ad Hominem.

Pessimismo

A percepção da realidade pode sempre piorar. A oscilação de como percebemos a realidade em termos valorativos é pequena. Não são muitos os picos, os altos e baixos. Toda a percepção da realidade paira sobre uma mesmice irritante, enfadonha e interminável.

As grandes elevações no processo valorativo de julgamento pessoal são raras. Duram pouco, também. Assim, neste marasmo existencial, todo ser que se percebe lutando contra a média implora para que algo aconteça, mesmo com durabilidade ínfima.

Dentre os que buscam alterações no modo de perceber o mundo, há os pessimistas. Os que esperam, procuram, lutam e torcem para que o pico de emoção seja para baixo. Buscam a desgraça, o desamor e o desalento. Afinal, é muito mais fácil perceber uma realidade piorada do que vê-la positivamente. São raros os nascimentos de filhos, sobrinhos, netos e afilhados, as conquistas de premiações, aniversários, casamentos, enfim, os dias para se comemorar algo. Existem muitos dias idênticos, rotineiros e cansativos. Destes dias só se pode esperar mais do mesmo, mais enfado.

Por outro lado, dias comemorativos também são capazes de mudar a forma de ver o mundo. A ansiedade, a expectativa, a busca pela perfeição e todos os planejamentos podem e saem errados. Não há como valorar positivamente tais datas. Busca-se o trágico, espera-se o pior, há torcida por confusão e luta por conflitos. Notícia de terremoto é o ápice da concretização de realmente ter certeza que a realidade não é boa.

Nestas condições olhamos para a estante de livros, mas nenhum nos convida a ler. Os filmes perdem o encanto. A boa música é a vigília de um gato e o vento nas frestas da janela. Garrafas de vinho são abertas, papéis são rabiscados, fotografias são revisitadas. Quando a percepção da realidade piora, ficamos criativos e pensativos, mas não como forma de melhorar a situação. Criar e pensar não ameniza a tristeza. Pensa-se e cria-se sobre a própria realidade mal vivida. O desejo é afirmá-la. Pensa-se sobre a condição pessimista da vida, cria-se como uma ode à péssima vida.

No fim, tudo é um grande marasmo. A realidade é feita de ondas curtas. Criamos movimento nos jogando ao mar. Somos quase todos pessimistas.

escrito para o blog Catando Ideias