O desperdício de talentos: comentários à Istoé

Na matéria da Revista Istoé desta semana há destaque para a perda de indivíduos talentosos para outros países. De acordo com lead da reportagem o Brasil possui enorme dificuldade para identificar e desenvolver alunos superdotados. O texto elaborado por duas jornalistas procura identificar algumas falhas e possíveis soluções para este fato. Aqui irei comentar um pouco sobre esta questão, pois parece haver alguns equívocos.

Ao final do primeiro parágrafo, que conta a história de Matheus Camacho, aluno de 14 que ganhou a Olimpíada Internacional de Ciências no Irã, as jornalistas apontam o interesse final de reportarem o assunto. Afirmam que

Apesar de querer ser grande, falta ao País uma política sólida para a valorização de talentos – coisa que outros emergentes como China e Índia, com seus tropeços e acertos, têm se empenhado mais em desenvolver. É certo que o grande desafio nacional dos últimos 15 anos foi universalizar a educação, esforço inegavelmente necessário, mas que teve como ônus desnecessário a negligência com os alunos com altas habilidades.

A parte final do trecho aqui destacado é uma constatação óbvia, não apenas do que acontece no Brasil, mas de todo lugar no qual o estado detém o controle sobre o ensino. Uma educação estendida a todos e promovida de forma obrigatória para as crianças é desigual para com os alunos brilhantes e para com os alunos com extrema dificuldade. A universalização, idolatrada por aqueles que a tomam como necessária, sempre foi o confisco das crianças, seus corpos e tempo, pelo governo. Não é de se admirar que tal política educacional resultasse numa péssima escolarização. A negligência de um ensino público compulsório não recai apenas sobre os alunos com altas habilidades, mas sobre todos os alunos. Entretanto, apesar de uma política educacional ter sido um fiasco por 15 anos, um suplício aparece. Deseja-se uma política sólida de valorização de talentos. Entendo como política sólida aquela feita com rigor e determinação das mãos de ferro de governos autoritários. Se o intuito foi escrever sobre a necessidade de uma política eficiente, isto é, que apresente resultados, então o equívoco está feito.

Não há eficiência em governos. Sem um concorrente o governo realiza o que desejar, pois o capital utilizado para seus feitos não são findáveis, pois vem da cobrança de impostos. Desta forma, a receita a ser gasta é enorme. Toda a máquina burocrática para a aplicação de uma nova política é altamente dispendiosa. Novos cargos são criados, licitações duvidosas são abertas e o dinheiro que deveria ser aplicado à educação é dissolvido em diversos gastos nas pirâmides do ministério e secretarias da educação.

Mesmo com uma política sólida (algum programa de bolsas, por exemplo) há uma enorme barreira que dificulta a descoberta de talentos, a barreira cultural. A questão cultural divide-se em duas partes. A primeira parte é levantada pela matéria. Trata-se de da falta de preparo dos professores em identificar alunos com altas habilidades. Os professores geralmente pensam que alunos superdotados existem apenas em escolas particulares e não em periferias. Vivenciei este fato, se não me engano em 2008, quando lecionava Filosofia na E. E. José Lins do Rêgo no Jardim Ângela, periferia de São Paulo. Havia uma aluna desinteressada que fechou o primeiro bimestre com zero em todas as disciplinas. Nas avaliações do segundo bimestre pedi que ela escrevesse qualquer coisa somente para não fechar com zero. Ela se virou, pegou uma folha e em 15 minutos escreveu uma das melhores dissertações que li durante os 6 anos de trabalho no ensino público. Resolvi convencer meus colegas a desafiarem a aluna, os que o fizeram obtiveram excelentes resultados. Infelizmente, apenas quatro professores ofereceram oportunidade à aluna. Nas aulas nada desafiadoras ela continuou sem realizar as atividades. Reprovou aquele ano e viria a reprovar o ano seguinte pelo mesmo motivo.

A segunda barreira cultural na descoberta de talentos é tratada de modo superficial na reportagem. Trata-se do “fator sorte”. É preciso mais do que altas habilidades para conseguir colocar em prática o talento que se possui. A sorte é necessária não porque falta alguma política eficiente de descoberta e aprimoramento de talentos, mas porque o país está fundado em uma base não meritocrática[1]. A sorte torna-se necessária quando não há uma cultura de reconhecimento das realizações dos indivíduos. Este reconhecimento e valorização é um dos fatores que diferenciam o Brasil de outros países. O mérito é deixado de lado para que aqueles que não possuem altas habilidades não se sintam menores. Por outro lado, há uma enorme cultura da inveja. Ao invés de parabenizar os grandes feitos, procura-se sempre um motivo para desmerecer e descaracterizar as realizações de grande prestígio.

Além da dificuldade em identificar os talentosos há ainda outro problema no Brasil. O problema é a qualidade de nosso ensino. Pouquíssimas escolas destinadas a alunos com altas habilidades estão em funcionamento e o nosso ensino superior é de péssima qualidade. A qualidade da formação de professores impede que estes reconheçam alunos habilidosos e que possam trabalhar com eles. Um professor com péssima formação tem muito pouco a oferecer a um aluno superdotado.

Além de formar péssimos professores, o ensino superior no Brasil é pouco convidativo a estes alunos. Um aluno extremamente capaz irá preferir universidades mais qualificadas que a USP, a melhor universidade brasileira. O problema dessa qualidade em nada tem a ver com as reivindicações de mais investimento. Mais dinheiro não resolve o problema. É preciso mudar um pouco a cultura de pesquisa. Há enorme preconceito para com o financiamento privado de inovações científicas. Porém, os cursos que recebem verbas privadas destacam-se em avanços e produções científicas. Descobertas e inovações tem impacto enorme na sociedade. Novos produtos são oferecidos a um menor preço e isto beneficia a população.

Tendo em vista estes problemas, não é de se admirar que os melhores saiam do país. Nossa cultura universitária é uma cultura do diploma e não uma cultura de pesquisa. Formamos trabalhadores em 4 anos e não pensadores e pesquisadores. É preciso mudar um pouco essa cultura do diploma universitário. Pessoas podem se qualificar de outras formas. Essa ideia de universidade para todos faz com que a universidade tenha o mesmo problema do ensino básico, a perda da qualidade por conta da universalização.

Escrito para o site Livre & Liberdade.


[1] No podcast, eu, André Assi e Luciano Oliveira, discutimos um pouco a questão.

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