O fim do libertarianismo ou hangout sobre o mene da dissertação do mito da violação do PNA

There-is-no-freedom-we-are-all-slaves O crescimento do libertarianismo no Brasil cria muitos eufóricos. Impulsionados pela divisa “Está acontecendo”, muitos sorrisos são distribuídos e muitas almas se acalantam com supostos avanços em direção à liberdade. Diante de tantos avanços, pessimistas e realistas parecem não compreender o novo movimento libertário brasileiro. Há motivos para diminuir tamanho otimismo, pois parece que tal crescimento se assemelha a um tumor maligno, difícil de ser retirado por completo e com potencial de se espalhar. É verdade que o libertarianismo tem crescido muito. Hoje se fala sobre isto em diversos círculos. Entretanto, a estupidez, a ignorância, a desinformação, a preguiça e a desonestidade tem crescido em progressão geométrica.

É preciso pontuar muitas coisas, sem que o texto seja longo, para que as mentes mais fracas possam ler mais do que um título. Sem titubear, o problema do libertarianismo é que as pessoas não sabem ao certo o que é libertarianismo. Libertarianismo é uma doutrina política fundamentada na defesa da ampliação das liberdades individuais e econômicas. Dentro desta doutrina há divergências. São libertários: o liberalismo neoclássico de Friedrich Hayek e Milton Friedman, o anarcocapitalismo de Murray Rothbard e David Friedman, o objetivismo de Ayn Rand, o geolibertarianismo (georgismo) de Fred Foldvary, o libertarianismo de esquerda de Hillel Steiner e Peter Vallentyne, o agorismo de Samuel Konkin III, o minarquismo de Robert Nozick, o neo-mutualismo de Kevin Carson, além de diversas outras posições de anarquistas e libertários clássicos e contemporâneos. É preciso notar que há um corpo grande de teóricos e uma divergência de ideias.

Sem saber o que seja o libertarianismo as pessoas se jogam num universo de debate, raso, turvo e desnecessário. Partem de uma ideia de sujeito e indivíduo livre, mas terminam engolidas pelo zeitgeist. Reproduzem os modos de ser impostos pela cultura e pela condição humana de nosso tempo. Não escapam dos determinantes culturais e sociais que os tornam filhos de seu tempo. Assim como toda uma geração, sucumbem diante de uma condição de: egocentrismo, relativismo e imediatismo.

Egocêntricos, os jovens ditos libertários, estão fechados numa narrativa de si mesmos. Seus desejos estão acima da realidade e, sendo incapazes de entender a realidade, seus pensamentos, ideias e debates são recheados de “eu entendo desta forma, não preciso provar e não me interesso em compreender o seu modo de pensar”. O culto ao “eu” é tão exacerbado e incentivado que cria deformações ególatras de “eu defendo o meusobrenomismo” ou “eu sou meusobrenomeano”. Além disto, o número crescente de hangouts apenas demonstra o quanto estão fechados num mundo fantasioso do “eu”. A superficialidade e a excentricidade são atributos de um infeliz espetáculo. A profundidade inexistente é acompanhada de fieis seguidores e multidões que adoram preencher seu tempo de existência com “- oi, tá me ouvindo? – ficou bom agora? – tá com chiado. – você não tem fone de ouvido? – minha conexão está ruim…”. Não há maior perda de tempo do que ouvir adolescentes imberbes ou tiozinhos gagos e sem didática durante horas. Ainda no universo do egocentrismo, o ápice do culto ególatra se dá com as escolhas de seus mitos. De um lado, uma multidão juvenil ansiosa por líderes elege seus seres mitológicos baseados em realização inexistente. De outro lado, seres minimamente alfabetizados escrevem “mitei” quando conseguem elaborar uma sentença minimamente criativa ou vexatória.

Relativistas, essa nova geração de aprendizes de libertários, não entendem que o subjetivismo e o individualismo metodológicos não são de forma alguma uma defesa de uma não existência de verdades objetivas e/ou absolutas. Muitos menos toda interpretação é verdadeira. A metodologia parte apenas de compreender o homem em sua dimensão individual, que possui valores e concepção de bens subjetivos e, portanto, não pode ser do plano do político o controle e a determinação de quais devem ser os valores e concepções dos indivíduos. Há uma moralidade, amoral é claro, na doutrina POLÍTICA do libertarianismo. Debates morais não são o cerne da questão, especialmente no pensamento rothbardiano. É óbvio que debates morais são importantes e os mais colorosos, mas realmente não faz sentido debatê-los num ambiente no qual pensa-se que a política não deva interferir nas concepções individuais. Se tais concepções trazem prejuízos à vida ou propriedade de terceiros o problema é a ação e não a ideia que a gerou.

Imediatistas, os filhos do pós-modernismo, anseiam encerrar todo o conhecimento adquirido pela humanidade, durante milênios, em meia dúzia de frases em redes sociais. Em primeiro lugar, aquele que fica pedindo para os outros dissertarem é um idiota. Em segundo lugar, as pessoas não dissertam, elas emitem opiniões pessoais. Em terceiro lugar, nenhuma contribuição é feita para o crescimento individual dos participantes de tais empreitadas. Esses mesmos imediatistas, reduzem tudo à uma poça de lama chamada PNA (princípio de não agressão). Assusta ver o tipo de debate ao redor de um princípio que, antes de mais nada, é pouco compreendido. Se entendessem tal princípio não ficariam discutindo na dimensão em que discutem. Até mesmo os que criticam o PNA como único raciocínio válido para argumentar uma ética libertária precisam de mais do que dois artigos de internet para embasarem suas críticas.

Por falar em artigos de internet, tais imediatistas acreditam que um texto num blog ou site é capaz de dar conta de todo um assunto. Artigos são fragmentos de um todo. São apontamentos que permitem que eventos ou perguntas possam, isoladamente, ser compreendidos e debatidos. O real entendimento de algo demanda tempo, ou seja, tempo de leitura, tempo de releitura, tempo de leituras adicionais e todos estes tempos mediados por tempos de meditação e reflexão.

Estas três características moldam a compreensão geral de quem seja o libertário: um nerd, virgem, adolescente, mimado, sociopata que se acha o máximo sendo um caricato personagem de internet. Nenhuma mudança política e cultural pode ser realizada por um grupo de pessoas com este perfil. Ainda bem que defendem que crimes de injúria e difamação não existem, assim podemos xingá-los e humilhá-los pois é isto que merecem os estúrdios.

Há muito ainda o que apontar como: a falta de espírito empreendedor dos que defendem o empreendedorismo; a falta de espírito capitalista (tudo tem um preço e a concorrência é boa) dos que reclamam do preço dos livros e dos seminários e o excesso de institutos; e a nova geração de direita que é ignorante e incapaz de debater num nível mais elevado. Não há o que comemorar.

Portanto, caro individualista, melhore a si mesmo pois isto é o mínimo que você poderia fazer em favor da causa que diz defender. Você é livre pra não fazer nada disto, mas acostume-se a ser um escravo, ou melhor, escravo palhaço.

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O desperdício de talentos: comentários à Istoé

Na matéria da Revista Istoé desta semana há destaque para a perda de indivíduos talentosos para outros países. De acordo com lead da reportagem o Brasil possui enorme dificuldade para identificar e desenvolver alunos superdotados. O texto elaborado por duas jornalistas procura identificar algumas falhas e possíveis soluções para este fato. Aqui irei comentar um pouco sobre esta questão, pois parece haver alguns equívocos.

Ao final do primeiro parágrafo, que conta a história de Matheus Camacho, aluno de 14 que ganhou a Olimpíada Internacional de Ciências no Irã, as jornalistas apontam o interesse final de reportarem o assunto. Afirmam que

Apesar de querer ser grande, falta ao País uma política sólida para a valorização de talentos – coisa que outros emergentes como China e Índia, com seus tropeços e acertos, têm se empenhado mais em desenvolver. É certo que o grande desafio nacional dos últimos 15 anos foi universalizar a educação, esforço inegavelmente necessário, mas que teve como ônus desnecessário a negligência com os alunos com altas habilidades.

A parte final do trecho aqui destacado é uma constatação óbvia, não apenas do que acontece no Brasil, mas de todo lugar no qual o estado detém o controle sobre o ensino. Uma educação estendida a todos e promovida de forma obrigatória para as crianças é desigual para com os alunos brilhantes e para com os alunos com extrema dificuldade. A universalização, idolatrada por aqueles que a tomam como necessária, sempre foi o confisco das crianças, seus corpos e tempo, pelo governo. Não é de se admirar que tal política educacional resultasse numa péssima escolarização. A negligência de um ensino público compulsório não recai apenas sobre os alunos com altas habilidades, mas sobre todos os alunos. Entretanto, apesar de uma política educacional ter sido um fiasco por 15 anos, um suplício aparece. Deseja-se uma política sólida de valorização de talentos. Entendo como política sólida aquela feita com rigor e determinação das mãos de ferro de governos autoritários. Se o intuito foi escrever sobre a necessidade de uma política eficiente, isto é, que apresente resultados, então o equívoco está feito.

Não há eficiência em governos. Sem um concorrente o governo realiza o que desejar, pois o capital utilizado para seus feitos não são findáveis, pois vem da cobrança de impostos. Desta forma, a receita a ser gasta é enorme. Toda a máquina burocrática para a aplicação de uma nova política é altamente dispendiosa. Novos cargos são criados, licitações duvidosas são abertas e o dinheiro que deveria ser aplicado à educação é dissolvido em diversos gastos nas pirâmides do ministério e secretarias da educação.

Mesmo com uma política sólida (algum programa de bolsas, por exemplo) há uma enorme barreira que dificulta a descoberta de talentos, a barreira cultural. A questão cultural divide-se em duas partes. A primeira parte é levantada pela matéria. Trata-se de da falta de preparo dos professores em identificar alunos com altas habilidades. Os professores geralmente pensam que alunos superdotados existem apenas em escolas particulares e não em periferias. Vivenciei este fato, se não me engano em 2008, quando lecionava Filosofia na E. E. José Lins do Rêgo no Jardim Ângela, periferia de São Paulo. Havia uma aluna desinteressada que fechou o primeiro bimestre com zero em todas as disciplinas. Nas avaliações do segundo bimestre pedi que ela escrevesse qualquer coisa somente para não fechar com zero. Ela se virou, pegou uma folha e em 15 minutos escreveu uma das melhores dissertações que li durante os 6 anos de trabalho no ensino público. Resolvi convencer meus colegas a desafiarem a aluna, os que o fizeram obtiveram excelentes resultados. Infelizmente, apenas quatro professores ofereceram oportunidade à aluna. Nas aulas nada desafiadoras ela continuou sem realizar as atividades. Reprovou aquele ano e viria a reprovar o ano seguinte pelo mesmo motivo.

A segunda barreira cultural na descoberta de talentos é tratada de modo superficial na reportagem. Trata-se do “fator sorte”. É preciso mais do que altas habilidades para conseguir colocar em prática o talento que se possui. A sorte é necessária não porque falta alguma política eficiente de descoberta e aprimoramento de talentos, mas porque o país está fundado em uma base não meritocrática[1]. A sorte torna-se necessária quando não há uma cultura de reconhecimento das realizações dos indivíduos. Este reconhecimento e valorização é um dos fatores que diferenciam o Brasil de outros países. O mérito é deixado de lado para que aqueles que não possuem altas habilidades não se sintam menores. Por outro lado, há uma enorme cultura da inveja. Ao invés de parabenizar os grandes feitos, procura-se sempre um motivo para desmerecer e descaracterizar as realizações de grande prestígio.

Além da dificuldade em identificar os talentosos há ainda outro problema no Brasil. O problema é a qualidade de nosso ensino. Pouquíssimas escolas destinadas a alunos com altas habilidades estão em funcionamento e o nosso ensino superior é de péssima qualidade. A qualidade da formação de professores impede que estes reconheçam alunos habilidosos e que possam trabalhar com eles. Um professor com péssima formação tem muito pouco a oferecer a um aluno superdotado.

Além de formar péssimos professores, o ensino superior no Brasil é pouco convidativo a estes alunos. Um aluno extremamente capaz irá preferir universidades mais qualificadas que a USP, a melhor universidade brasileira. O problema dessa qualidade em nada tem a ver com as reivindicações de mais investimento. Mais dinheiro não resolve o problema. É preciso mudar um pouco a cultura de pesquisa. Há enorme preconceito para com o financiamento privado de inovações científicas. Porém, os cursos que recebem verbas privadas destacam-se em avanços e produções científicas. Descobertas e inovações tem impacto enorme na sociedade. Novos produtos são oferecidos a um menor preço e isto beneficia a população.

Tendo em vista estes problemas, não é de se admirar que os melhores saiam do país. Nossa cultura universitária é uma cultura do diploma e não uma cultura de pesquisa. Formamos trabalhadores em 4 anos e não pensadores e pesquisadores. É preciso mudar um pouco essa cultura do diploma universitário. Pessoas podem se qualificar de outras formas. Essa ideia de universidade para todos faz com que a universidade tenha o mesmo problema do ensino básico, a perda da qualidade por conta da universalização.

Escrito para o site Livre & Liberdade.


[1] No podcast, eu, André Assi e Luciano Oliveira, discutimos um pouco a questão.