Por que relacionamentos são complicados?

Todo bate-papo de solteiros uma hora entrará no polêmico assuntos dos relacionamentos. No último mês houve mais lenha ao tema com os artigos sobre “mulheres independentes” e “mulheres chatas”. O grande erro do debate – e não dos artigos – foi focar numa antiga e desnecessária guerra dos sexos.

Além deste foco numa suposta guerra dos sexos, o assunto sobre relacionamentos sempre recai sobre a qualidade das pessoas e sobre como o nosso momento histórico é marcado por relacionamentos frágeis e descartáveis.

Gostaria de falar sobre mais alguns pontos, que considero importantes ao debate.

1. Guerra dos sexos

Em primeiro lugar, relacionamento não é guerra. Por que relacionamentos são complicados? Porque você tem encarado seus relacionamentos como disputas. Relacionamento não é um jogo no qual há vencedor e perdedor (pelo menos não deveria ser). O exemplo mais comum disto é comparar o relacionamento com esportes. Um casal não está numa partida de tênis. O casal está num jogo de frescobol. Ninguém vence com o erro do outro, mas o erro do outro é contrabalançeado com o esforço em manter a bola em jogo, apesar de um passe fraco ou forte demais.

Homens e mulheres são diferentes. Se você gosta do outro, precisa entender um pouco de uma natureza que não é a sua. Precisa entender também que dizer frases como “todo homem é isto ou aquilo” e “toda mulher deseja isto ou aquilo” são de um coletivismo imbecil. Há, obviamente, muito em comum entre todos os homens, mas cada um deles é um ser dotado de história e estrutura psicológica individual. Ao final, a única guerra que existirá será entre você e seus preconceitos.

2. Técnicas de conquista

Relacionamentos são complicados porque você tem caído em técnicas de conquista. Peço desculpas ao galanteadores de plantão, mas vou dizer algumas verdades.

Para as Mulheres:

Homens costumam utilizar uma técnica para atrair a sua atenção. Eles te fazem um elogio seguido de uma reprovação. Elogiam o seu cabelo e falam mal da sua roupa. Elogiam a sua aparência e criticam a sua bebida. (Os exemplos são infinitos). Ao fazerem isto, os homens despertam em você uma raiva. “Como assim ele me elogia e me critica ao mesmo tempo?”. “Quem ele acha que é pra falar isso pra mim?”. Se você fizer uma dessas perguntas irá automaticamente atrás deste homem, pois quer limpar a sua imagem. Que melhor forma de limpar a imagem do que se mostrar uma pessoa cheia de qualidades e fazê-lo se interessar por você? A mulher pensa que conquistou, mas foi exatamente o oposto que ocorreu.

“Mas e o cara que eu conheci acidentalmente numa fila ou no mercado que não me criticou?”. Preste atenção em como conheceu o homem. Psicologicamente estamos mais propensos a fazer um favor a alguém por quem já fizemos um favor. Neste sentido, os homens adoram pedir dicas sobre o que comprar. Ao ajudar o homem com a sua “pergunta” você se torna mais fácil a cair na lábia dele. É o velho truque de pedir o isqueiro emprestado. Funciona. Portanto, o carinha conhecido acidentalmente pode não ser o homem que apareceu na sua vida, mas apenas alguém pouco comprometido com relacionamentos sérios.

Para os Homens:

Não é muito difícil conquistar um homem quando o desejo é apenas para uma noite. Se for este o interesse, a mulher irá usar obviamente o fator roupa. Se o seu interesse for em algo a mais, preste atenção se você não está caindo no truque do visual.

A mulher que estava te olhando e desviou o olhar quando você a olhou não necessariamente é tímida. Ela faz isto exatamente com o intuito de que você vá até ela e ache que foi você que a conquistou.

Além disto, as mulheres usam o poder único de conquistar com o toque. Um beijo e um abraço mais prolongado, um toque sutil no braço, o beliscão etc. Sem que você perceba estará atraído.

Muitas vezes relacionamentos se iniciam por causa da investida de uma dessas técnicas da arte de sedução. Não vai demorar muito para que alguém perceba que a atração não vem de dentro. O final da história a maioria conhece.

3. Amor

Relacionamentos são complicados pois se entende muito pouco o que seja o amor.

Amar traz a idéia de relação. É uma relação entre o sujeito que ama e o objeto amado. Assim, o amor é o que mantém esta relação existente entre um sujeito e um objeto. Tal relação, entretanto, não significa que o amor é uma mera relação vetorial unidimensional de alguém para algo. Amor não é um sentimento ou uma abstração. Amor é o esforço deliberado para atingir a finalidade de manter o vínculo entre sujeito-objeto. Constitui-se num conjunto de ações racionais que permitem que o desejo pelo objeto possa manter-se enquanto desejo, apesar das circunstâncias.

As pessoas dizem muito facilmente o “eu te amo”, mas esquecem que amar é o engajar-se totalmente para manter o vínculo. É por este motivo que relacionamentos começam e terminam tão rapidamente. Deseja-se o outro. Possui-se o outro. Mas não há esforço em manter o desejo. Um desejo consumado torna-se rapidamente um desejo por outro objeto.

As pessoas querem se relacionar, mas não querem a responsabilidade de amar realmente. Se iludem com um amor de mentira e passam a imaginar que não há mais amor.

Portanto, saiba o que é amar, não caia na conversa alheia e fuja dos relacionamentos conflituosos. Entenda que o amor começa com o amor próprio, mas precisa de uma boa pitada de amor ao outro. E o mais importante: não peça suco natural e nem use crocs.

A Política do Amor

O que a política tem de congruente com o amor? Esta é possivelmente a primeira pergunta de quem leu o título deste texto. Talvez muitos se enganem com o título. Pensando nisto, é preciso pontuar a temática que abordo e como cheguei à quase insanidade de pensar política com o amor.

David Nolan, em 1971, desenvolveu um diagrama político contendo dois parâmetros. Através das liberdades individuais e liberdades econômicas é possível situar uma proposta política em: autoritária, de esquerda, de direita, de centro e libertária. Foi a partir deste diagrama que pensei numa forma de ver o amor, de acordo com as visões políticas.

Não pensei, é óbvio, na temática do amor apenas por conhecer o Diagrama de Nolan. O tema chegou de forma mais vivencial. Amigos e familiares tendem a se confessar para mim. Todos nós temos alguém para recorrer em nossos momentos de angústia. Aquele que se torna ouvinte dos problemas alheios passa a enxergar os confessadores por outros ângulos. Conhecendo as escolhas políticas e amorosas temos um arcabouço grande para compreender um pouco mais sobre o íntimo das pessoas.

É certo que um socialista não irá amar, necessariamente, de maneira socialista. Não é intuito demonstrar que os indivíduos amam conforme a visão política que possuem. Também não quero dizer que isto não possa ser verdade. O que sei é que existem diferentes formas de abordar os relacionamentos humanos. Existem amantes autoritários, amantes egoístas, amantes exigentes, amantes desencanados. Escolher uma parceria amorosa é, e deveria ser, algo tão sério quanto escolher o engajamento político. Não é uma mera questão de escolher quem amar, mas como amar.

Preciso lembrar que não escrevo sobre o “amor à política” ou sobre “politicar o amor”. Se amo a política? Sim, me interesso por assuntos políticos. Se faço politicagem com o amor? Já fiz. Já fui demagogo e hipócrita o suficiente para com meus próprios sentimentos. A política do amor é minha contribuição para o debate e discussão política.

Em tempos nos quais a política e o amor estão tão em baixa, trocados por politicagem e paixões, talvez fosse o momento de tentar unir os temas.

Seria possível compreender o amor através da política, ou vice-versa? Esta é a pergunta chave inicial. Há quem defenda que política não se faça com o coração e que deva ser esvaziada de todo e qualquer argumento proveniente do sentimentalismo. Por outro lado, há quem pense que política é paixão. Paixão pela justiça, paixão pela cidade, paixão pelo bom convívio entre os homens.

Certo é o que a poetiza afirma: todos entendem o amor, mas não há quem o explique.

Política

Situamos nosso debate político a partir do Diagrama de Nolan, desenvolvido em 1971. David Nolan o publicou num jornal afirmadamente libertário, o que, é claro, tendencia pensar a política sob a ótica de que todas as outras visões estão incorretas e/ou incompletas.

Vamos primeiros compreender o diagrama. É bem simples.

Existem dois parâmetros, um eixo X e um eixo Y. O eixo X representa o nível de Liberdade Individual. O eixo Y representa o nível de Liberdade Econômica. Com estes dois parâmetros temos as seguintes análises:

  • Pouca liberdade econômica e pouca liberdade individual são características de governos Autoritários.

  • Pouca liberdade econômica e muita liberdade individual são características de governos Socialistas.

  • Muita liberdade econômica e pouca liberdade individual são características de governos Conservadores.

  • Média liberdade econômica e média liberdade individual são características de governos Centristas.

  • Muita liberdade econômica e muita liberdade individual são características de governos Libertários.

A partir desta análise fica fácil entender onde se situam os tiranos, a esquerda, a direita, os centristas e os libertários.

Amor

Falar de amor é sempre perigoso. Assunto mais controverso e polêmico que discutir política, religião e futebol.

Todos possuem algo a dizer sobre o amor. Sabem uma citação de algum poeta ou poetiza, leram algum livro de autoajuda que aborda a questão, assistiram as produções cinematográficas ou ouviram atenciosos os ditados e conselhos espalhados pela sociedade.

A própria história do pensamento discutiu o tema. Platão abordou a questão, Santo Agostinho também e o tema continua vivo até o presente, como é o caso da abordagem feita por Andre Conte-Sponville.

Torna-se óbvia a necessidade de precisar o termo amor. Não se trata, aqui, de um sentimento abstrato, de uma explicação linguística do idioma grego, muito menos de uma metafísica.

A palavra amor é usada aqui como sendo um relacionamento. Amar traz a idéia de relação. É uma relação entre o sujeito que ama e o objeto amado. Assim, o amor é esta relação que existe entre um sujeito e um objeto.

Tal relação, entretanto, não significa que o amor é uma mera relação vetorial unidimensional de alguém para algo. Amor não é um sentimento ou uma abstração. Amor é o esforço deliberado para atingir a finalidade de manter o vínculo entre sujeito-objeto. Constitui-se num conjunto de ações racionais que permitem que o desejo pelo objeto possa manter-se enquanto desejo, apesar das vicissitudes da vida.

Quando direcionado para um indivíduo, o amor se desdobra em duas formas: o amor para com os outros e o amor para consigo mesmo.

Assim como no Diagrama de Nolan, podemos pensar no amor a partir de dois parâmetros, um eixo X e um eixo Y. O eixo X representa o nível de Amor para com os outros. O eixo Y representa o nível de Amor próprio. Com este dois parâmetros temos as seguintes análises:

  • Pouco amor próprio e pouco amor para com os outros são características dos Insensíveis.

  • Pouco amor próprio e muito amor para com os outros são características dos Altruístas.

  • Muito amor próprio e pouco amor para com os outros são características dos Egoístas.

  • Médio amor próprio e médio amor para com os outros são características dos Românticos.

  • Muito amor próprio e muito amor para com os outros são características dos Amoristas.

Com este pano de fundo, podemos falar sobre a relação entre os cinco espectros políticos e as cinco formas de amar.

1 – Totalitarismo e Insensibilidade

De acordo com o Diagrama de Nolan, os governos totalitários são aqueles que restringem ao máximo as liberdades dos indivíduos. Neste sentido, determinam economicamente a produção, a distribuição, as relações trabalhistas, os juros etc. Individualmente, controlam decisões que pertencem aos indivíduos, como forma de casamento, substâncias ingeridas entre outros.

Historicamente houve diversos governos que restringiram ambas as liberdades. Consideraram-se os detentores da moral e os responsáveis por conduzir o povo pelo caminho correto que estabeleceram. A Alemanha nazista é um exemplo disto. O governo do terceiro heich, controlava com mão de ferro a economia, conduzindo a produção para o progresso. Os indivíduos não eram donos de si, mas pertenciam à nação. Suas vidas deveriam ser vividas para a realização da nação perfeita, como idealizou Hitler. Algumas pessoas não deveriam fazer parte desta nova nação e, embora tivessem nascido naquele local, foram mortas. Assim, homossexuais, judeus, ciganos e deficientes físicos serviriam ou como cobaias para a melhoria biológica da raça ariana ou como trabalhadores em campos de concentração. Os demais teriam boa alimentação, praticariam esportes, produziriam arte dentro de padrões clássicos de beleza. A indústria deveria trazer autonomia ao país, ser forte, empregar e produzir o suficiente para todos.

Não somente a Alemanha nazista viveu tal regime, como outros países. Cuba, no pós revolução socialista, também presenciou a intervenção estatal sobre a economia e os indivíduos. Toda a produção era controlada pelo estado e a distribuição também. Sem as trocas irracionais das sociedades capitalistas, era preciso que fosse determinado o mínimo suficiente para cada cidadão, com a finalidade de não haver desigualdade. Com isto, os trabalhadores recebiam tickets do governo para trocar por alimentos. Tal medida controla tanto a opção de escolha individual quanto a economia.

Além destas formas de controle, como determinar o que será plantado, quais drogas serão proibidas ou impedir casamento entre indivíduos do mesmo sexo, sistemas totalitários combatem principalmente a liberdade de expressão. Ao indivíduo não é permitido falar abertamente o que pensa, pois pode comprometer a estrutura social desejada. Emitir opinião contra o governo é como soprar o castelo de cartas.

A forma de coibir os indivíduos a exercerem suas liberdade civis e econômicas é através do uso da força. A força pode ser tanto policial quanto psicológica. A força policial está presente naqueles que usam uniformes determinados pelo governo, com poder de fazer valer as ideias dominantes através de literal uso da força. Se um indivíduo, ou grupo de indivíduos, está falando em praça pública contra o governo, basta enviar uma força policial-militar para bater, expulsar, reprimir, calar ou matar a manifestação. Porém, com tal uso de força policial os indivíduos ainda se sentem livres para, secretamente, pensarem, falarem e discutirem o que suas mentes quiserem. É por isto que governos totalitários se utilizam de outra forma de coerção, muito mais sutil, a coerção psicológica. Orwell apontou muito bem o assunto em seu clássico 1984. O governo que olha tudo reprime muito mais. Deste modo, o medo é o grande aliado. É preciso que as pessoas saibam que estão sendo vigiadas, que seus amigos podem denunciá-las, que seus parentes podem entregá-las e que não podem confiar em ninguém para falar aquilo que desejam.

Conclui-se que restrição da liberdade é aumento do medo, pois se cada passo e escolha tomada é controlada, e todo erro é castigado, então sempre haverá o medo de escolher por si mesmo. Se o indivíduo perde a autoconfiança para decidir por si mesmo, torna-se dependente dos outros. O totalitário é aquele que torna os outros dependentes de si ao tolher-lhes as liberdades de serem o que são.

Paralelamente há muito em comum entre a ausência de liberdade e a ausência de amor. Aquele que não ama a si mesmo e nem ama os outros é a pessoa que definitivamente não ama. Não ama porque este é o caminho que escolheu para si. É a forma como arquitetou seu império dos relacionamentos. Incapaz de amar é a descrição do insensível. A insensibilidade é a incapacidade de sentir.

Tudo está tranquilo quando tal forma de viver pertence à individualidade do insensível. Entretanto, assim como aquele que pensa ser a liberdade algo ruim para as demais pessoas, o insensível pensa ser o amor algo ruim para os outros. Desta forma, ambos assumem o papel de salvadores da humanidade.

O jogo da salvação torna-se a brincadeira mais antitética possível. Destrói-se a liberdade em nome da libertação e afoga-se o amor em nome da amabilidade.

O insensível não é apenas o incapaz de amar, é aquele que impede que os outros amem. Não compreendendo o que seja o amor, vislumbra um universo governado pela burocracia sentimental. Sem o desejo, todas as formas de relacionamento tornam-se puramente materiais. A racionalidade excessiva, aquela que impede o sentir, transforma os relacionamentos em meros acordos contratuais visando – não manter o desejo entre sujeito-objeto, mas – garantir que o relacionamento aparente seja apenas um contrato formal.

A insensibilidade vê no amor um mal. Vê no amor o fator responsável pelos conflitos e desordens, quando este é o que efetivamente consegue implantar a paz.

2 – Socialismo e Altruísmo

Apesar das palavras socialismo e altruísmo possuírem um grande prestígio na sociedade são, aqui, apenas referenciais de um prática política e amorosa incompleta.

A marca do pensamento socialista é ser a favor de grande liberdade das formas de ser, isto é, das liberdades individuais de cada um efetivar sua existência da maneira que desejar. Para que isto ocorra o socialista defende que a economia não seja livre, pois, para ele, uma economia descontrolada impediria que as pessoas pudessem efetivar suas vontades, ficando presas às suas condições econômicas.

Para que todos possam atingir a plenitude da existência, o socialista defende uma equiparação material. Se houverem pessoas com propriedade e outras sem, se houverem detentores dos meios de produção e detentores de suas forças de trabalho, haverá um impedimento por conta da exploração e alienação decorrentes do modo de produção do mercado livre.

Um dos pilares do pensamento que visa tal igualdade é o altruísmo. Coloca-se o outro como o centro de tudo. Não importa muito o que o indivíduo quer realizar para consigo mesmo, mas o que pode realizar tendo em vista o outro.

Muitos podem pensar que esta forma de amar do altruísta é linda, porém esconde problemas bem graves. Colocar outros como prioridade é dissolver a si mesmo no emaranhado dos outros. É também exigir que o outro se dissolva em meio aos outros. Com isto, temos a morte da individualidade em nome da coletividade.

Diferente da tirania e insensibilidade que impõem um não-amor a todos a partir da insensibilidade interior do sujeito, temos, em nome de uma abstração que é o benefício de todos, um desejo para que todos sejam iguais. É o amor que busca a padronização ao mesmo tempo em que tal padronização levanta a bandeira da liberdade do amor. Esta contradição é facilmente notada quando em nome da liberdade sexual deseja-se que todos libertem-se sexualmente. Em nome de uma liberdade de gênero deseja-se inverter a polaridade ao invés de eliminá-la.

O amante altruísta é aquele que permitirá ao seu companheiro tudo o que este desejar, até o dia em que o outro perceberá que está se relacionando com um espectro, incapaz de ser o que se é e muito mais preocupado com o que os outros vão dizer de si mesmo.

3 – Conservadorismo e Egoísmo

Conservar valores é negar novos valores, é ser egoísta em ceder mudanças. O conservadorismo político é marcado pela defesa dos valores tradicionais. Significa, de certo modo, ter ressalvas para com as liberdades individuais, pois estas podem corroer alguns pilares que têm sustentado a civilização ocidental durante os séculos.

Os conservadores são, então, contra o casamento gay, a liberação das drogas, o aborto, a prostituição e todo costume que foge das convenções e da normalidade, como as pessoas que modificam seus corpos com tatuagens e piercings.

Por outro lado, defendem a liberdade econômica. São a favor da sociedade baseada na garantia da propriedade privada e na liberdade de cada um buscar o bem que deseja a partir do trabalho e das interrelações de uma economia livre.

O conservadorismo está relacionado ao egoísmo pois defende tudo a partir de sua própria interpretação do mundo. Quer o que é bom para si mesmo, ou seja, uma sociedade livre economicamente, mas que respeite os valores tradicionais.

Egoísmo não é virtude. Como dizia Aristóteles, “o egoísmo é condenado, como convém; ser egoísta, porém, não significa simplesmente amar a si mesmo, mas sim amar a si mesmo em excesso”. Por mais que a natureza do interesse próprio do amante seja considerada e não apenas o a quem se destina (ele mesmo), a natureza justa e moral do interesse do egoísta que age visando seu interesse próprio não retira o problema do outro que é desconsiderado em seu projeto pessoal egoísta. É certo que muitos que se consideram egoístas no sentido randiano estão muito mais próximos do amante amorista, que abordaremos mais adiante.

O egoísmo nada tem a ver com individualismo, tem a ver com amar a si mesmo sobre todas as coisas. Deste amor resulta a vontade de fazer do mundo o que se deseja pra si e não um ambiente para que toda individualidade possa ser efetivada. O conservador egoísta não deseja que determinadas individualidades sejam efetivadas.

O amante egoísta é como o conservador. Vê o mundo a partir de sua própria perspectiva. Ama tanto a si mesmo que é incapaz de amar o outro. O outro existe apenas em função de seu amor por si. Com isto, o parceiro do egoísta é impedido de ser o que deseja, precisa se adequar aos caprichos para que o relacionamento possa se manter dentro da “tradição” esperada e defendida pelo egoísta.

4 – Centrismo e Romantismo

As pessoas que situam-se ao centro quando indagadas sobre suas convicções políticas o fazem geralmente sob os auspícios da moderação, clareza e reflexão. Em nome do equilíbrio discordam dos tiranos que desejam suprimir as liberdades e dos libertários que intentam maximizar as liberdades. A pergunta que imediatamente salta é: como os centristas podem estar relacionados ao romantismo? A resposta é mais óbvia do que parece.

Romantismo, pois diz-se do romântico aquele que não possui um alvo objetivo. O romântico é aquele amante confuso, perdido dentro de sua utopia, isto é, sua idealização imaginária de algo sem muito embasamento. Não há um fundamento sólido para o que os românticos defendem. As ideias estão perdidas e constantemente entram em conflito umas com as outras.

O mesmo lamaçal de confusão do qual o romântico não consegue escapar também prende o centrista. Pensa politicamente que é preciso que as pessoas sejam livres pra consumir o que desejarem, mas é preciso proibir algumas coisas para o consumo. Pensa que as pessoas precisam de liberdade para empreender, mas defendem a necessidade de uma burocracia para tal empreendimento. Não há princípio que norteie seus pensamentos e suas posições. Tudo é uma constante relativização de princípios.

O amante romântico não coloca a si mesmo nem o outro como prioridade. Ama a partir deste limbo confuso no qual o outro é prioridade, mas dentro de diversas condições. Em outro momento e sob outras condições prioriza a si mesmo.

Esta indecisão coloca o outro numa posição extremamente complicada e insegura. Nunca é possível saber o modo como o outro irá amar. A incerteza é bem pior do que a certeza da insensibilidade, do altruísmo ou do egoísmo. Um relacionamento com alguém que ama de um modo que lhe permite amar de diversas formas é uma escolha boa apenas para quem não deseja rotina e que consegue lidar bem com a contradição cotidiana. Precisa estar preparado para que as convicções mudem e que, de um dia pro outro, o balanço entre o amor de si e o amor ao outro seja realizado com pilares totalmente diferentes do anterior.

Não é de se estranhar que a maioria das pessoas se situe nesta posição confortável e maleável de agir como a situação lhe convier. É exatamente isto que torna a maioria dos relacionamento conflituosos. Quais são os princípios que norteiam as prioridades deste modo de amar? Nenhum. Quando tudo é possível nada garante a continuidade. E quando não há segurança no amor sabemos as consequências.

5 – Libertarianismo e Amorismo

Se sempre é necessário explicar o conceito político libertário, não poderia ser diferente com o termo amoroso referente, o amorismo.

Começando com o termo libertarianismo, podemos dizer que o libertário é o defensor de liberdades plenas. Defende um alto grau de liberdade econômica e um alto grau de liberdade individual. Possui a ideia de que ninguém deve conduzir ou ditar como os outros devem agir e viver. Cada indivíduo deveria ser efetivamente livre para ser o que desejar e para realizar o que quiser, desde que isso não agrida diretamente a liberdade dos demais.

Quando pensamos na questão do amor, a partir dos parâmetros aqui abordados, podemos dizer que um alto grau de amor próprio e de amor para com o outro produz um amorista. O amorismo que trato aqui é o termo encontrado para o “ideal do amor”, assim como o libertarianismo é o “ideal da liberdade”. Neste sentido, o libertário é o defensor da liberdade assim como o amorista é o defensor do amor.

O amor em sua totalidade é aquele que ao mesmo tempo em que ama si mesmo, o que se é, também ama o outro em sua individualidade e originalidade. É o amor que entende que todos são diferentes e que precisam amar a si mesmos do mesmo modo como amam o modo como o outro é, sem destruir o amor por si mesmo.

Portanto, o amorista é aquele que busca um alto grau de amor próprio e amor para com o outro. De fato, o amorista não concebe uma separação entre as duas formas de amar. Só existe amor se for amor completo. Amar a si sem amar o outro não é amor é egoísmo. Amar o outro sem amar a si é negar a si e a negação de si mesmo não é amor. Este amante é aquele que compreendeu que para que um relacionamento entre sujeito-objeto faz-se necessário não apenas amar o objeto desejado. É preciso que o desejo esteja em si, no outro, para o outro e para si mesmo.

Este amor em sua totalidade não é uma conciliação entre os amores. Não há conflito entre amar a si e ao outro. A maximização do amor é que permitirá que exista o respeito mútuo às individualidades. Ninguém precisa perder para que exista o amor, não em termos de amor próprio. As concessões ocorrem não por perda de amor próprio, mas apenas quando o amor próprio viola o amor próprio do outro. É aqui que reside o diferencial entre este amante e os outros. Ele não renuncia, ele compreende a dimensão necessária para que projetos diferentes possam ser perseguidos ao mesmo tempo.

Considerações

Com o que vimos aqui, podemos retomar ao ponto mais importante. Que tipo de amante temos sido? Não há um quiz para que possamos ver o grau de amor próprio e de amor para com o outro. É preciso refletir se em nosso lugar nas decisões amorosas temos sido levados a negar o amor, a viver na confusão do relativismo ou se temos conseguido amar a nós mesmos no mesmo grau em que amamos o outro.

Se politicamente escolhi a liberdade em seu grau máximo, porque não escolheria o amor em sua plenitude? A compreensão da ideia de não violar as liberdades alheias precisa se expandir para a ideia de não impedir que as pessoas amem a si mesmas. Como compôs o grande músico norte-americano, Leonard Cohen, “Love is not a victory march”.

Amar não é batalhar para impor a si e nem uma abstenção de si. Amar não é uma formalidade ou um teatro. Amar não é viver eternamente conciliando duas formas de amar até a exaustão da insegurança. Que sejamos mais amorosos e menos insensíveis, altruístas, egoístas e românticos.