Arte, gosto e significado

monalisa

O que é Arte? Há algum critério objetivo que defina o que é arte? Se sim, qual critério? Se não, tudo é arte? Que relação existe entre a arte e o gosto?

Essas perguntas não são nem um pouco triviais. O problema principal ocorre quando relacionamos a arte com o gosto. Se não existe um critério que defina a arte, então não há mal gosto e tudo é permitido. Se existe um critério então é possível classificar a arte como arte superior e inferior, relacionando o fazer e a fruição artísticos com o bom e o mau gosto.

Inicialmente é preciso entender que a história da arte percorre toda a história do homem, ou seja, arte é desde a arte rupestre até as instalações sem sentido que vemos nas exposições atuais. Compreende desde os sons arcaicos e cantos tribais, passando pelos compositores clássicos, como Mozart e Beethoven, até os bondes e MCs do funk. Das representações de divindades e do mundo em pedra e madeira até as esculturas abstratas feitas de lixo.

Apesar de acompanhar toda a história do homem, é na contemporaneidade que há um debate sobre o qual gostaria de escrever. A partir do século XX surgem manifestações artísticas que dificultam e confundem os apreciadores de arte a entenderem o que seja a arte. De um lado existem os que querem resgatar uma compreensão da arte como atrelada ao bom gosto e de outro lado os que defendem que tudo é arte. Discordo dos dois grupos.

Nem tudo é arte. Se tudo é arte. Se tudo pode ser considerado arte, então matamos o próprio significado de arte. Para que exista a arte é preciso que exista a não-arte. É desta contradição que podemos compreender seu significado. Se todo jogador de tinta numa superfície for considerado um artista e seu trabalho uma obra de arte, não há nenhuma diferença entre a Monalisa e a parede rabiscada do quarto de uma criança. Existem critérios para a arte e estes critérios são objetivos.

Quais seriam, então, os critérios objetivos da arte? Há, cada vez mais presente, uma apologia da ideia de que a arte contemporânea não seja arte. Tais defensores criticam o ready-made de Marcel Duchamp, como A fonte, o urinol que colocou numa galeria assinado com o pseudônimo R. Mutt. Criticam também a pop-art de Andy Warhol.

Os advogados da beleza, como Roger Scruton, cometem o equívoco de não compreender duas coisas: (1) a era da arte ligada ao gosto e ao belo acabou e (2) não há uma relativização da arte devido ao fato da relativização da beleza.

É certo que a beleza e o gosto foram relativizados. Entretanto, tal relativização não atinge a arte. A arte não é atingida pois se desligou do debate acerca da beleza para se conectar ao debate sobre o significado. É este ponto que precisa ser compreendido.

Um urinol tombado certamente não é bonito nem sublime. Mas ao se deparar com um objeto do cotidiano dentro de um espaço de arte o observador é levado a refletir sobre o significado e não apenas a utilizar seu juízo estético.

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“A fonte”, Marcel Duchamp

Arthur C. Danto, filósofo e crítico de arte, um admirador do trabalho de Duchamp, expôs sua compreensão sobre a arte como algo que possui algumas características. Arte é arte somente quando: (1) tem assunto, (2) tem estilo (ponto de vista e projeção de atitude), (3) é reticente (tem um espaço metafórico a ser preenchido pelo público) e (4) quando a sua interpretação exige um contexto de história da arte.

Com tais critérios objetivos – e não com uma postura relativista – é que o trabalho de artistas como Duchamp podem ser considerados obras de arte. Rabisco na parede de um quarto infantil, sons aleatórios ou qualquer outra “manifestação” da interioridade de alguém não se enquadram nos critérios de Danto.

Sempre haverá espaço para o gosto e para padrões ou critérios de beleza. Eles são importantes. Mas quando pensamos em arte, falamos daquilo que nos retira da mera admiração para nos levar a pensar com a obra, seja ela sublime ou nojenta, seja agradável ou estranha. Estamos na época da arte como significação, que saibamos refletir e não apenas dizer “gostei” ou “não gostei”. A arte nos diz muito mais do que nossa primeira impressão é capaz de captar.

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2 comentários sobre “Arte, gosto e significado

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