O que é liberdade?

Quando defendemos ideias e ações, precisamos procurar definir as palavras que usamos. Muitos já ouviram falar em liberalismo e libertarianismo, mas o que significa a palavra liberdade? Longe de falar de uma explicação complicada e filosófica pretendo trilhar uma explicação didática. Não é preciso falar difícil para ser profundo. A clareza é importante.

Antes, porém, de falar o que é a liberdade, vou começar pelo o que a liberdade não é. Quando falamos em liberdades, não estamos falando de habilidades, condições e capacidades. Não poder realizar alguma coisa não torna ninguém menos livre. A liberdade não é a capacidade de fazer algo. Além disto, existem diversas concepções de liberdade.

Leia mais…

Texto publicado em minha coluna, Descomplicando, no site Liberzone.

Anúncios

A História do Movimento Libertário Brasileiro

conferenciaepl

Uma das coisas mais complicadas é escrever a história. O distanciamento dificulta a compreensão, mas a proximidade também impede um olhar sem tanta participação do fenômeno historiado. O momento é recente, sem a possibilidade de distanciamento temporal para digerir os fenômenos e ainda há participação direta de quem historiografa este pequeno intervalo de tempo que marca o nascimento do movimento libertário brasileiro. Tendo em vista a parcialidade e as limitações, aconteceu e está acontecendo o que se segue.

Escolhi marcos históricos que mudaram a tendência do movimento ou que possibilitaram uma nova forma de militar. Faço alguns julgamentos, cometo equívocos, mas pretendi não construir heróis do movimento. Prefiro escolher meus heróis depois que morrem, pois não posso cometer o erro de observar a história de uma forma e estar deveras equivocado com o que vi. Não vou explicar terminologias e conceitos. Esta história é informativa, não uma defesa de um ponto de vista dentro do libertarianismo, apesar de muitos conhecerem minha visão de mundo a partir do que escrevo.

Este texto é um relato do que vivenciei. Do que vi, ouvi, li, pesquisei e me informei. Desculpem-me se algo importante não está destacado. Mesmo muitas pessoas podem esquecer de algo.

Antes de 2004 – Think Tanks e Mobilizacões Esparsas

Quando se fala em movimento libertário no Brasil é preciso separar dois grandes momentos. Há uma era de mobilização individual que perdura até 2004 e uma mobilização grupal que se inicia principalmente através da rede social Orkut. Obviamente que muita coisa ocorreu no Brasil antes de 2004. Poderíamos começar a história com os portugueses aventureiros que vieram viver por aqui muito antes da coroa portuguesa pretender tomar posse da terra distante. Inúmeras personagens do movimento inconfidente, do movimento abolicionista e de outros levantes contra os governantes e seus asseclas poderiam ser lembradas. Entretanto, o moderno libertarianismo surge no século XX e falar deste passado é falar de um proto-libertarianismo, como Bastiat, Cantillon, Spooner, Tucker e outros pensadores que possibilitaram a fusão de ideias que culminaram no movimento libertário.

A era pré 2004 é marcada pela atuação do Instituto Liberal (IL). Fundado em 1983 no Rio de Janeiro por Donald Stewart Jr (1931-1999), o instituto passou a traduzir obras sobre o liberalismo, praticamente inexistentes no Brasil. Destaque para a primeira edição do livro Ação Humana de Mises. Junto com as traduções vieram as palestras, colóquios e seminários. Dentre os professores e especialistas, juntou-se ao IL o professor Og Francisco Leme (1922-2004), que permaneceu no instituto até 2003. O trabalho do IL e principalmente de Donald Stewart Jr e Og Leme foi o de transmitir e ensinar a empresários e jovens proeminentes intelectualmente os princípios da liberdade e as bases de uma sociedade liberal, muitas vezes com aulas particulares. O IL abriu mais sete instituições em capitais brasileiras, mas por problemas administrativos foram sendo fechadas e reincorporadas ao IL-RJ, com exceção do IL-RS, que se tornou o Instituto Liberdade em 2004.

No Rio Grande do Sul também havia o Instituto de Estudos Empresariais (IEE), fundado em 1984 em Porto Alegre por jovens empresários. O IEE funciona do mesmo modo até hoje. Um grupo de jovens empresários debate e estuda temas das mais diversas áreas com a finalidade de se tornarem líderes que defendam uma sociedade justa, ética e livre. Os encontros se destacam por conta dos convidados que palestram: intelectuais, especialistas, políticos, ganhadores de Nobel. Em 1988 o IEE organizou o seu primeiro Fórum da Liberdade, evento que tem sido realizado anualmente até hoje.

O primeiro presidente do IEE foi William Ling, da mesma família que em 1995 fundou o Instituto Ling para conceder bolsas de estudos a jovens, com potencial, para instituições de ensino de ponta.

O Instituto Friedrich Naumann para a Liberdade no Brasil, em atividade desde 1984, tem trabalhado na formação política e cívica. A atuação em formação política esteve ligada à juventude do partido Democratas, atividades em conjunto com outros institutos liberais e a publicação de obras relacionadas ao cotidiano político e ao como defender as ideias liberais no mundo político real.

Apesar de livros e autores libertários serem debatidos a partir da atuação deste grupos, havia ainda um foco muito mais num liberalismo econômico, ausente no Brasil, do que num sistema filosófico que abordasse a liberdade de forma mais ampla. O conservadorismo e anti-petismo marcaram os debates liberais antes da eleição de Lula.

Diversos intelectuais e empresários se esforçavam para difundir o liberalismo no Brasil como José Guilherme Merquior (1931-1991), J. O. de Meira Penna (1917-), Jorge Gerdau Johannpeter (1936-), Roberto Bornhausen, Leonidas Zelmanovitz, Candido Prunes e André Burger. Uma figura responsável por um debate amplo acerca da liberdade por conta de sua exposição enquanto político e polêmico foi Roberto Campos (1917-2001). Deste grupo de liberais, talvez o único libertário brasileiro desse tempo pré 2004 tenha sido o Henry Maksoud (1929-). O empresário escreveu uma nova constituição, diversos livros sobre liberalismo econômico, além de defender que todos os políticos eleitos fossem enviados a uma ilha para não governarem e pararem de dar canetadas que inviabilizavam o empreendedorismo brasileiro. Maksoud era, sem dúvidas um liberal radical, defensor não apenas de liberdade econômicas, mas também de liberdade individual. Em 1974 comprou a Revista Visão e a tornou um veículo de propagação de ideias liberais, mesmo sob um regime de censura. A revista criticava o regime militar brasileiro e sua postura estatista, desenvolvimentista e intervencionista, assim como o sindicalismo e as políticas sociais.

Na virada do século, Renato Lima, Eduardo Maia e Rafael Ferreira formaram um grupo de estudos em Recife-PE, a Sociedade Hayek. Os colegas de faculdade, de diferentes cursos, se reuniam para discutir textos de filosofia e economia, em especial clássicos inexistentes no currículo dos cursos universitários. O espírito crítico e não dogmático do grupo incentivou a formação de outros grupos de estudos. O sucesso da Sociedade Hayek pode ser visto nos 4 prêmios Donald Stewart Jr, concedido pelo IL, a estudantes que participavam do grupo, Renato Lima, Rafael Ferreira e Arthur Gomes. Entre os estudantes da Sociedade Hayek muitos se destacaram como Renato Lima (hoje no MIT), Diogo Coelho (Itamaraty), Emiliano Abad Monteiro de Melo (embaixador no Brasil da Sandbox Network) e Marcelo Correia (Ministério do Planejamento). No curso de jornalismo da UFPE, uma das marcas deixadas pelos hayekinos foi a copa de futebol criadas por eles, que até hoje se chama Paulo Francis.

Renato Lima e Eduardo Maia também fundaram, em 2002, o Café Colombo, um programa de rádio sobre livros e ideias que promove o pensamento liberal com comentários de obras como Ação Humana e O Caminho da Servidão. Foram feitos programas dedicados a personalidades liberais, como Roberto Campos, e entrevistas com personalidades liberais. O programa que vai ao ar até hoje na Rádio Universitária da UFPE foi a porta de entrada de diversos estudantes no movimento libertário, pois através do programa conheceram livros, institutos e palestras.

No mundo virtual, os poucos blogs versados em filosofia da liberdade e economia austríaca eram o Austríaco do Lucas Mendes, O Indivíduo, do Pedro Sette Câmara, Sérgio Coutinho de Biasi e Alvaro Velloso, e aqui e ali algumas publicações do Alceu Garcia (pseudônimo do advogado Pedro Mayall Guilayn). Vale lembrar quem em novembro de 1997 os três amigos de O Indivíduo distribuíram um jornal físico na PUC-RJ, causando um enorme rebuliço na instituição. O blog foi resultado desta militância.

A maioria dos indivíduos estavam espalhados e raros eram os encontros de liberais radicais. A maioria ainda adepta de um liberalismo clássico com argumentos da escola austríaca de economia contra o dirigismo do estado. Também na internet havia um grupo que se reunia no fórum de debates do antigo site do Olavo de Carvalho. Com o fechamento do fórum e um pouco órfãos dos ILs, algumas pessoas se reuniram num grupo de discussões de e-mail do Yahoo, a “Rede Liberal”.

2004 – 2008 – O Orkut

Como dito anteriormente, o aglutinador dos libertários foi o Orkut. Isso se deu principalmente por conta das opções políticas que o site dava para colocar em seu perfil. Entre as opções havia “libertarian” e “very libertarian”. Como no Brasil o termo “libertário” sempre foi controverso, muitos anarquistas colocaram a opção “very libertarian” em seus perfis. Por este motivo, em 2004 foi criada uma comunidade chamada O que é very libertarian, para discutir e explicar o termo no Brasil.

Foi a partir de 2005 que, entre os debatedores do Orkut, surgiu um jovem economista chamado Rodrigo Constantino, que se firmou enquanto formador de opinião. Constantino participava de inúmeros debates, muitos calorosos, lhe rendendo muitos fãs e desafetos.

Em 2005 o IEE funda o seu capítulo em Belo Horizonte e em 2007 funda o seu capítulo em São Paulo.

Existiu um blog durante o ano de 2006, o Ação Humana, de Guilherme Roesler. O autor, um estudante de direito, possuía outros blogs (Gazeta Cultural e Federalista), porém se afastou do libertarianismo. Um dos poucos blogs de 2006 que ainda estão no ar é o blog do Sol Moras Segabinaze, o SOL.

Em 2006 já haviam comunidades em português sobre libertarianismo e sobre autores como Rothbard, Mises e Hayek. O pólo central dos debates era a comunidade Liberalismo e depois na Liberalismo (verdadeiro), quando os conservadores tomaram a primeira. Os debates também foram calorosos na Economia Brasileira.

Um marco e constantemente citada era a comunidade Liberais de Orkut na Kombi, criada pelo Léo Miranda (hoje envolvido com o Estudantes Pela Liberdade na região de Ipatinga). Em 2007 foi enchida a primeira Kombi. Se você está lendo este texto é porque muitas outras ficaram lotadas.

Em 2005 e 2006 discutiu-se a criação de um partido libertário. Tudo começou com Fernando Chiocca em 21 de Novembro de 2005, criando uma comunidade no Orkut para atrair interessados. A primeira versão do atual LIBER foi o P-LIBER (depois P-LIB), com logotipo, site e diversas propostas feitas pelo Alexsander Rosa. Com o tempo e os debates as pessoas do Orkut passaram a desenvolver a ideia até chegarem no nome Libertários e novo logo. Visto como solução para o cenário político, o LIBER obteve apoio de anarcocapitalistas, minarquistas, liberais clássicos e objetivistas, como Geraldo Boz Junior e Edu AFO.

Muitos libertários participaram deste aprendizado de debates. Fernando Chiocca se consolidou como defensor radical da liberdade tendo como marca o desprezo pelas ideias erradas de seus oponentes. Henrique Vicente, Guilherme Inojosa e Rhyan Fortuna eram bem ativos nesse período. Bernardo Emerick travou debates com diversas “personalidades” orkuteanas e é lembrado por vencer cada um deles. O debate principal daquela época se dava entre o libertarianismo jusnaturalista e o utilitarista. Debates sobre anarcocapitalismo, minarquia e o papel do estado também eram frequentes.

Em 2007 aconteceu a primeira reunião oficial do Libertários (LIBER) em São Paulo, no dia 12 de Agosto, com Filipe Rangel Celeti (conhecido como F) e André Luiz de Freitas Paranhos (conhecido como Presidente, foi o presidente do Libertários-SP quando o partido ainda não havia se registrado). O grupo passou a se encontrar eventualmente num café na Av. Paulista e depois mudou os encontros para o apartamento do André Rufino. Além do Filipe e dos Andrés, Carlo Rocha, Roberto Chiocca, Cauê Bocchi, Ney Fonseca, Guilherme Inojosa e Natan Cerqueira eram os libertários mais ativos na capital paulista. Foi a partir destes encontros que o amigo do Rufino, Bruno Paludo, também aderiu à causa. Nesta mesma época os libertários de Belo Horizonte passaram a se reunir na casa do Caio Magno. Entre os participantes estavam Juliano Torres, Thiago Guedes, Bernardo Gaetani, Henrique Vicente e Luciana Lopes Nominato Braga. A partir destes encontros, Minas Gerais passou a ser o ponto de multiplicação de novos libertários. Na cidade do Rio de Janeiro os encontros contavam com Bernardo Santoro (que cedia seu escritório para os encontros), Eric Duarte, André Victor Frajtag, Thiago Pinheiro, Pedro Henrique Gonzalez e Tertuliano Soares. Vários libertários passaram a organizar encontros informais e formais em suas cidades e cada vez menos os defensores da liberdade se sentiam solitários.

Foi em 2007 que o vídeo A filosofia da liberdade ganhou sua versão legendada em português, contribuindo para a disseminação das ideias.

2008 – 2012 – A Tomada da Internet e das Ruas

Após passar alguns anos no Orkut, como se fosse a incubadora libertária, o movimento passou a se expandir. Erick Vasconcelos monta o blog Libertyzine na metade de 2007 e Sidney Sylvestre dá uma aula de filosofia e economia no Depósito de Ideias. No fim deste ano entra no ar o site do Instituto Ordem Livre, projeto da Atlas Economic Research Foundation em cooperação com o Cato Institute.

Os irmãos Roberto e Fernando Chiocca, juntamente com Hélio Beltrão, Leandro Roque e o professor Antony Mueller fundam o Instituto Ludwig von Mises Brasil, que vai ao ar no início de 2008. Apesar da tradução de artigos do Mises Institute, o Mises Brasil (IMB) não é subordinado ao instituto norte-americano. No mesmo ano, Rafael Hotz lança seu blog Enxurrada e Rafael Guthmann coloca no ar o seu Preço do Sistema (idealizado por Juliano Torres). Este ainda seria o ano em que Juliano Torres, o jovem vindo do movimento federalista e participante de inúmeras discussões, colocaria no ar o Portal Libertarianismo. Em pouco tempo o Mises Brasil e o Portal Libertarianismo se tornaram referenciais de conteúdos em português.

Foi em abril de 2008 que, na véspera do Fórum da Liberdade XXI, no programa Conversas Cruzadas, Rodrigo Constantino e Ciro Gomes debateram. O preparo do político sobressaiu ao economista criando uma das expressões mais comuns do meio libertário: “Isso dá bilhão?”.

Na cidade de Fortaleza no Ceará foi criado o Grupo de Estudos Dragão do Mar, hoje vinculado ao EPL. Os fundadores foram Raduán Melo, Cibele Bastos, Jeova Costa Lima Neto, Bruno Aguiar e Antônio Mariz. O grupo estudava obras de economia austríaca, organizava os eventos liberais nas universidades locais e atuava como diretório do LIBER.

No final de 2008 foi criada a Rothbard Society, grupo que intentava concentrar a divulgação do libertarianismo através de apostilas introdutórias distribuídas a diversos setores da sociedade. O grupo trocava textos para a formação pessoal e foi provavelmente o brainstorming de diversos projetos que se desenvolveram quando os ânimos se esfriaram e o grupo acabou.

Para além do universo de tradução de textos e livros e produção de material original em blogs e sites de institutos, Olavo Rocha (1988-2009) passou a gravar vídeos com sua produtora Fonft Filmes. O humor foi a marca das produções da Fonft, que infelizmente parou com suas atividades com o falecimento do Olavo.

Em 2009 um grupo de estudantes da UnB deu o pontapé para a criação de movimento estudantis defensores da liberdade ao fundarem a Aliança Pela Liberdade. No mesmo ano o grupo já participava dos Conselhos Superiores da Universidade de Brasília. Causaram enorme barulho na universidade quando, em 2011, elegeram uma chapa para a direção do Diretório Central dos Estudantes.

No Fórum da Liberdade de 2009, Diogo Costa e o Ordem Livre juntaram todos os liberais do Brasil envolvidos em algum movimento para planejar ações. Neste encontro foi decidido que o LIBER deveria ser criado em Belo Horizonte. Muitos laços foram criados entre diversos institutos que não se conheciam e um “Dia da Liberdade dos Impostos” foi feito em conjunto naquele ano.

No dia 20 de junho de 2009, um grupo de ativistas fundou o Libertários (LIBER) em Belo Horizonte. Juliano Torres foi eleito Presidente. Permaneceu no cargo até 2011. Na reunião de fundação o debate se deu entre anarcocapitalistas e minarquistas. Após concessões, foram aprovados um estatuto descentralizador e pautado em princípios inalienáveis e um programa moderado.

Ainda em 2009, Torres criou um grupo no MSN do Libertários. O chat sobre futebol, novela e todo tipo de assunto, inclusive política, atraiu muita gente para o libertarianismo. A informalidade conectou pessoas do Brasil todo, gente que futuramente veio compor apoio ao LIBER, ao Portal Libertarianismo e ao Estudantes Pela Liberdade.

Em 2009 o Ordem Livre organizou o primeiro Liberdade Na Estrada, ideia de Lucas Mafaldo, que contou com a participação de Adolfo Sachsida, Bruno Garschagen, Diogo Costa, Hélio Beltrão, Lucas Mafaldo, Rodrigo Constantino e Fabio Ostermann. O LNE se repetiria pelos anos seguintes.

Em 2009, o IMB criou o I Prêmio IMB de artigos. As premiações foram cursos promovidos pelo Mises Institute. As categorias de premiação foram: Melhor Artigo e Maior Contribuição, ganhadas respectivamente por Joel Pinheiro da Fonseca (editor da revista Dicta&Contradicta e escritor no blog Ad Hominem) e Juliano Torres. Neste mesmo concurso tiveram menção honrosa Filipe Celeti e José Carlos Dragone.

Vai o ar o blog Q-Libertários destinado ao público LGBT. Tendo autor anônimo e na equipe o pseudônimo Endim Mawess, o blog durou dois anos.

No início de 2010, manifestantes do Rio de Janeiro organizaram uma passeata contra o PNDH-3 e a favor da liberdade. Esta manifestação foi a primeira a receber apoio do Libertários. O panfleto de convocação e de distribuição teve texto de Rodrigo Constantino. No Rio de Janeiro, a Globo e a Folha cobriram a manifestação. Em São Paulo a manifestação contou com a presença de partidários do PPS, Integralistas e do Movimento Mudança Já. Com um megafone um partidário do PPS falou e depois os integralistas passaram a usar o megafone. As falas começaram a sair do debate sobre o PNDH-3 e a Paola Morales Cardenas do LIBER se revoltou com os integralistas. Depois que os ânimos abaixaram Filipe Celeti usou o megafone e discursou a favor do indivíduo e contra as panacéias de povo, estado, pátria e outras loucuras ditas pelos outros participantes. Quando os integralistas falaram novamente disseram “filho de bandido vai ser bandido” e que “prostituta não tem dignidade e integridade”. Os libertários se revoltaram e os integralistas foram embora da manifestação.

Em abril de 2010, o IMB organizou o I Seminário de Economia Austríaca em Porto Alegre . Entre os palestrantes havia economistas estrangeiros, como Lew Rockwell, Joseph Salerno, Mark Thornton e Thomas Woods, além de David Friedman (filho de Milton Friedman) e Patri Friedman, filho de David. Entre os representantes brasileiros: Ubiratan Iorio, Rodrigo Constantino, Fábio Barbieri e Antony Mueller. A mídia classificou o seminário como Uma visão ainda mais liberal e uma defesa do ultraliberalismo. O evento possibilitou um encontro entre os defensores do libertarianismo, grupo que crescia a cada dia.

Em julho deste ano vai ao ar o primeiro blog assumidamente fusionista (conservador libertário), o Libertar, do Marcos Paulo Goes. O site é quase uma versão conservadora brasileira do conhecido site americano Info Wars.

Em 2011 foi montado na FEA o GEEA – Grupo de Estudos da Escola Austríaca, organizado por Gabriel Oliva, Thomás de Barros (um dos primeiros na FEA a estudar Escola Austríaca e que economicamente se tornou keynesiano), Felipe Farah, Felipe Durazzo, André Castro, Felipe Passero, Einstein do Nascimento e Filipe Celeti. Outros grupos de estudos foram criados por todo o Brasil. Na capital federal, por exemplo, foi criado o Grupo de Estudos de Escola Austríaca do Distrito Federal, o GEEA-DF, por Daniel Marchi e Tullio Bertini.

No ano de 2011 ainda houve a eleição de Bernardo Santoro como presidente do LIBER. Entre os desafios havia discussões internas que iriam desestabilizar o movimento partidário por conta do atrito de alguns membros fundadores. O foco do LIBER deixa de ser expansão para ser profissionalização.

Neste ano, Thiago Guedes, fundador do LIBER, do Portal Libertarianismo, do Grupo do MSN, dos Debates orkuteiros, simplesmente abandonou o libertarianismo para militar em movimentos e partidos de esquerda, tornando-se grande crítico do movimento libertário e de seus membros.

Ainda em 2011 o LIBER participou da Marcha Pela Liberdade em São Paulo, por conta da proibição da Marcha da Maconha. Apesar de entrevistados por alguns veículos como Canal Brasil e Radio Jovem Pan não foi possível saber se as falas foram ao ar.

Este momento (2009-2011) marcou a entrada de intelectuais e especialistas no movimento, principalmente orbitando o IMB, entre os principais: Ubiratan Iorio e Fabio Barbieri na Economia, André Luiz Santa Cruz Ramos no Direito, Klauber Cristofen Pires na Burocracia Estatal e Itamar Flávio da Silveira na História, para citar alguns nomes. O alcance do IMB chegou a pessoas como o jornalista Leandro Narloch, autor da franquia best-seller Guia Politicamente Incorreto.

Apesar da chegada de novos nomes, foi em 2011 que Rodrigo Constantino se afastou do IMB. Após ter um artigo sobre Mises e a democracia não publicado, passou a criticar o radicalismo de membros do conselho e de artigos. Torna-se um defensor de Mises e um crítico do Rothbard radical. A partir disto a sua carreira como colunista decola e seu discurso se torna mais moderado. Futuramente haveria mais uma briga entre o economista e o IMB.

A partir de 2011 os IEEs de São Paulo e Belo Horizonte se desligam do IEE e passam a ter estatuto próprio, formando o IFL – Instituto de Formação de Líderes.

Inspirado em Ateísmo e Peitos e Vegetarianismo e Bundas, Cristiano Eduardo Kroetz cria o Tumblr Libertarianismo e Lésbicas.

Em Curitiba, é fundado o Instituto Bastiat, com pessoas das áreas de engenharia, pedagogia, medicina, jornalismo, história, economia e direito. Em sua formação nomes como Geraldo Boz Junior, Leopoldo Castilho, Daniel Tisi, Rikardo Santana-Silva, Eduardo Godoy Ribas, Thiago Stefani, Nanna Ajzental e Sergio Ferreira.

2012 – Atual – Expansão e Consolidação

O começo de 2012 foi marcado pela produção dos Podcasts do IMB, liderados por Bruno Garschagen (Ordem Livre, Millenium e O Insurgente).

Foi apenas em 2012 que o movimento estudantil pela liberdade foi consolidado no Brasil. Após discussão acerca da ideia no Seminário de Verão do Ordem Livre em Petrópolis-RJ, o Estudantes Pela Liberdade (EPL) foi realmente organizado como o Students For Liberty global. Encabeçado por Juliano Torres, o EPL tem em seu conselho consultivo nomes como André Luiz S. C. Ramos, Anthony Ling, Carlos Pio, Diogo Costa, Fabio Barbieri, Fabio Ostermann, Helio Beltrão, Joel Pinheiro da Fonseca, Paulo Uebel, Rodrigo Constantino e Ubiratan Jorge Iorio. Dentre as lideranças estudantis: Carla Pereira, Carlo Rocha, Cibele Bastos, Daniel Sabba, Felipe Trentin, Guilherme Benezra, Isabela G. Campos Christo, Juliano Torres e Pedro Menezes.

Este encontro em Petrópolis não apenas iria consolidar o movimento estudantil libertário brasileiro, mas dar a cara a uma abordagem mais Bleeding Heart do Libertarianismo, herança da visita de Steven Horwitz ao Seminário de Verão do OL, como pode ser notado com a criação do site Capitalismo para os Pobres, de Diogo Costa.

O GEEA-DF realiza na capital federal o I e o II Encontro de Escola Austríaca de Brasília, em 2012 e 2013.

No universo político, o ano de 2012 contou com a participação de libertários nas eleições municipais. Bernardo Santoro concorreu no Rio de Janeiro-RJ e Sidnei Santana em Vitória-ES. Nenhum dos dois foi eleito. Rafael Lemos foi eleito o novo presidente do LIBER em 2013.

O IFL-SP realiza o Ideias em Movimento no Mackenzie-SP, fórum que contou com a participação do filósofo libertário Stefan Molyneux (Freedomain Radio). Aproveitando a vinda de Molyneux, o IMB promoveu um debate na Casa do Saber de São Paulo entre ele e o professor Vladimir Safatle.

Foi a partir de 2012 que Dâniel Fraga se consolidou como vlogger libertário de política. Sua defesa do anarcocapitalismo tem movimentado o universo dos debates políticos no YouTube. No mundo libertário temos os vídeos do Helleno de Carvalho Motta, da Jubs e do Cristiano Reyes Ruiz.

Surgiram neste período novos nomes que se tornaram proeminentes por conta das polêmicas no Facebook. Entre as personalidades destacam-se Luciano Takaki e Paulo Kogos.

Ainda neste ano o Instituto para o Desenvolvimento Econômico, Institucional e Social – IDEIAS (instituto criado por Juliano Torres para ser uma incubadora de diversos projetos) lançou a versão em português do Diagrama de Nolan e o Impostômetro de Bolso, aplicativo para celular. A execução técnica ficou a cargo da Algorich, empresa do libertário Max (Herond Salles). No ano seguinte, o IDEIAS foi incorporado ao EPL e, novamente em parceria com a Algorich, foi lançado o Índice de Liberdade Econômica.

No final de 2012 o cantor e compositor Lobão manifestou apoio à criação do LIBER, assinando a ficha de apoio e divulgando o partido no Twitter e em seus shows.

Em 2013 o IMB lançou a revista acadêmica MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia. A revista foi um marco para a produção acadêmica nacional e a tradução e publicacão de textos inéditos como, por exemplo, a tradução direto do latim de Rufino de Bolonha. Os responsáveis pela publicação foram o professor Ubiratan Iorio e o pesquisador Alex Catharino.

A segunda briga de Constantino com o IMB ocorreu em 2013. Por conta do lançamento do livro Privatize Já, Bruno Garschagen o entrevistou para o podcast. A entrevista não foi aprovada pelo conselho, o que irritou o economista. Muita discussão ocorreu abertamente no Facebook. Neste mesmo ano, Adolfo Sachsida publicou um texto em seu blog com o título Um Conselho aos Seguidores de Von Mises: Não Se Tornem Seguidores de Karl Marx, no qual criticava a postura radical dos libertários. Joel Pinheiro da Fonseca escreveu uma ótima resposta a Sachsida.

Na edição 172 da revista Roadie Crew, Wagner Lamounier, fundador da banda Sarcófago, ex-integrante do Sepultura e atualmente economista, disse: “acho que radicalismo é uma merda sempre que implica em querer impor aos outros, à força ou por meio de qualquer tipo de retaliação, sua própria visão e/ou opinião sobre algo. Isso se aplica à música, política, religião etc. Sou libertário – conheçam e assinem a petição para o partido LIBER ser criado! – e acredito no valor da liberdade de cada indivíduo escolher para si o que melhor lhe convier”.

Junho de 2013 foi o auge das manifestações. Também foi o marco da participação de libertários nas ruas. Na grande manifestação dos 60 mil de São Paulo, o LIBER organizou uma manifestação pelo fim do monopólio no setor de transportes. As duas manifestações se encontraram e muitos puderam conhecer uma outra forma de pensar a solução para os transportes com a panfletagem e os gritos de “monopólio não, livre mercado é a solução”. A participação de libertários nas manifestações em junho seguiram a agenda de participação iniciada no começo do ano com a manifestação de apoio a Yoani Sánchez em fevereiro. Não apenas em São Paulo, mas em outras cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Vitória, Recife e Florianópolis, grupos libertários participaram de manifestações sobre os transportes e de outros eventos como a Parada Gay.

Neste momento, Florianópolis passa a ter uma mobilização mais consistente com a união de partidários do LIBER, do NOVO, anarquistas e por conta do Liberdade na Estrada e da palestra de Antony Muller na UFSC. Entre os articuladores do movimento na capital catarinense, Eduardo Bellani e Vinicius Gravina da Rocha.

O IL ressurge com fôlego novo em julho de 2013 tendo como presidente Rodrigo Constantino. Na equipe, Arthur Chagas Diniz (ex-presidente) como vice-presidente, Bernardo Santoro como diretor administrativo, Alexandre Borges como diretor, João Luiz Mauad como diretor e Ligia Filgueiras como tradutora. Com o foco novo de produção de artigos de análises da situação política atual, o IL chamou para compor o quadro de articulistas nomes como Fábio Ostermann (OL) e Roberto Barricelli (jornalista e articulista do LIBER).

No cerrado brasileiro foi criado o Instituto Carl Menger, um amadurecimento do GEEA-DF, com Daniel Marchi, Tullio Bertini, Lino de Mello Gill, Bruno Guimarães, Getulio Malveira e Rogério Vargens. O foco do instituto é na área de gestão e negócios, atuando com formação em economia aplicada pautada na Escola Austríaca. O grupo tem organizado palestras e encontros na DX Investimentos, empresa que mantém um programa de educação sobre mercado financeiro e finanças.

A descentralização na produção de ideias se mostrou com a criação de outros sites de divulgação libertária como Livre e Liberdade com Luciano Oliveira e Andre Assi (que também possui um blog pessoal, O Bico do Tentilhão); Mercado Popular (influenciado pela abordagem Bleeding Heart do Libertarianismo) com Pedro Menezes, Carlos Góes, Mano Ferreira, Erick Vasconcelos, Felipe França, Anthony Ling (Rendering Freedom), Andre Ichiro, Rodrigo Viana (Libversiva e A Esquerda Libertária), Matheus Assaf, Ana Clara Barboza, Lorrayne Porciúncula, Diogo Coelho e Valdenor Júnior (Tabula não Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart, o primeiro blog a divulgar o Bleeding Heart Libertarianism no Brasil); Liberzone, voltado para um público mais jovem e leigo, com Felipe Hermes, Bruno Galiza, Rodrigo da Silva, Renato Paredes Alves, Filipe Celeti, Adriel Santana, Raphael Moras de Vasconcellos, Tatiana Gabbi, Luciana Lopes, Rafael Hotz, Alice Salles, Odilon Candido, Isabela Campos, Emanuel Victor, Alexandre Mota, Andrei Moreira, Edgard Freitas e colaboradores internacionais.

Outros autores e pensadores tem surgido por conta da disseminação das ideias. Vale mencionar a Andrea Faggion que busca resgatar as raízes kantianas do pensamento libertário em seu blog The Misft. Roberto Rachewsky (fundador do IEE) possui um blog de destaque, o Causas & Consequências.

Diversos institutos e mobilizações tem sido criados, entre eles há o Instituto Liberal do Nordeste (ILIN) com nomes como Ávilla Queiroz, Raduán Melo, Mano Ferreira, Gabriela Benício, Diego Barros, Rodrigo Saraiva Marinho, Cibele Bastos e Tiago Gomes. O nordeste tem sido um pólo de mobilização com o Expresso Liberdade, com Lourival Filho, e a editora Resistência Cultural.

A ampliação do libertarianismo cultural teve seu ápice com os Acadêmicos de Milton Friedman, grupo idealizado por Jopa Velozo e João Nogueira que toca samba com letras satíricas. Outras iniciativas culturais, como o Versos Pela Liberdade, têm divulgado a liberdade através da arte.

Futuro

Muita coisa pode acontecer futuramente. Em 2014 o Ron Paul virá ao Brasil e deverá ser entrevistado e trazer o debate político eleitoral para questões de liberdade.

No mundo da política há também a consolidação do NOVO, que já possui libertários apoiando. As eleições de 2016 devem contar com um novo discurso para os entusiastas. Para alguns críticos, há o perigo do NOVO ficar preso dentro de um discurso liberal conservador sem conseguir grandes avanços efetivos. Entretanto, não é possível prever o futuro.

Todos os homens fazem história e há muito o que realizar. Que cada libertário seja um agente de transformação, quer seja no espaço micro ou macro.

A Política do Amor

O que a política tem de congruente com o amor? Esta é possivelmente a primeira pergunta de quem leu o título deste texto. Talvez muitos se enganem com o título. Pensando nisto, é preciso pontuar a temática que abordo e como cheguei à quase insanidade de pensar política com o amor.

David Nolan, em 1971, desenvolveu um diagrama político contendo dois parâmetros. Através das liberdades individuais e liberdades econômicas é possível situar uma proposta política em: autoritária, de esquerda, de direita, de centro e libertária. Foi a partir deste diagrama que pensei numa forma de ver o amor, de acordo com as visões políticas.

Não pensei, é óbvio, na temática do amor apenas por conhecer o Diagrama de Nolan. O tema chegou de forma mais vivencial. Amigos e familiares tendem a se confessar para mim. Todos nós temos alguém para recorrer em nossos momentos de angústia. Aquele que se torna ouvinte dos problemas alheios passa a enxergar os confessadores por outros ângulos. Conhecendo as escolhas políticas e amorosas temos um arcabouço grande para compreender um pouco mais sobre o íntimo das pessoas.

É certo que um socialista não irá amar, necessariamente, de maneira socialista. Não é intuito demonstrar que os indivíduos amam conforme a visão política que possuem. Também não quero dizer que isto não possa ser verdade. O que sei é que existem diferentes formas de abordar os relacionamentos humanos. Existem amantes autoritários, amantes egoístas, amantes exigentes, amantes desencanados. Escolher uma parceria amorosa é, e deveria ser, algo tão sério quanto escolher o engajamento político. Não é uma mera questão de escolher quem amar, mas como amar.

Preciso lembrar que não escrevo sobre o “amor à política” ou sobre “politicar o amor”. Se amo a política? Sim, me interesso por assuntos políticos. Se faço politicagem com o amor? Já fiz. Já fui demagogo e hipócrita o suficiente para com meus próprios sentimentos. A política do amor é minha contribuição para o debate e discussão política.

Em tempos nos quais a política e o amor estão tão em baixa, trocados por politicagem e paixões, talvez fosse o momento de tentar unir os temas.

Seria possível compreender o amor através da política, ou vice-versa? Esta é a pergunta chave inicial. Há quem defenda que política não se faça com o coração e que deva ser esvaziada de todo e qualquer argumento proveniente do sentimentalismo. Por outro lado, há quem pense que política é paixão. Paixão pela justiça, paixão pela cidade, paixão pelo bom convívio entre os homens.

Certo é o que a poetiza afirma: todos entendem o amor, mas não há quem o explique.

Política

Situamos nosso debate político a partir do Diagrama de Nolan, desenvolvido em 1971. David Nolan o publicou num jornal afirmadamente libertário, o que, é claro, tendencia pensar a política sob a ótica de que todas as outras visões estão incorretas e/ou incompletas.

Vamos primeiros compreender o diagrama. É bem simples.

Existem dois parâmetros, um eixo X e um eixo Y. O eixo X representa o nível de Liberdade Individual. O eixo Y representa o nível de Liberdade Econômica. Com estes dois parâmetros temos as seguintes análises:

  • Pouca liberdade econômica e pouca liberdade individual são características de governos Autoritários.

  • Pouca liberdade econômica e muita liberdade individual são características de governos Socialistas.

  • Muita liberdade econômica e pouca liberdade individual são características de governos Conservadores.

  • Média liberdade econômica e média liberdade individual são características de governos Centristas.

  • Muita liberdade econômica e muita liberdade individual são características de governos Libertários.

A partir desta análise fica fácil entender onde se situam os tiranos, a esquerda, a direita, os centristas e os libertários.

Amor

Falar de amor é sempre perigoso. Assunto mais controverso e polêmico que discutir política, religião e futebol.

Todos possuem algo a dizer sobre o amor. Sabem uma citação de algum poeta ou poetiza, leram algum livro de autoajuda que aborda a questão, assistiram as produções cinematográficas ou ouviram atenciosos os ditados e conselhos espalhados pela sociedade.

A própria história do pensamento discutiu o tema. Platão abordou a questão, Santo Agostinho também e o tema continua vivo até o presente, como é o caso da abordagem feita por Andre Conte-Sponville.

Torna-se óbvia a necessidade de precisar o termo amor. Não se trata, aqui, de um sentimento abstrato, de uma explicação linguística do idioma grego, muito menos de uma metafísica.

A palavra amor é usada aqui como sendo um relacionamento. Amar traz a idéia de relação. É uma relação entre o sujeito que ama e o objeto amado. Assim, o amor é esta relação que existe entre um sujeito e um objeto.

Tal relação, entretanto, não significa que o amor é uma mera relação vetorial unidimensional de alguém para algo. Amor não é um sentimento ou uma abstração. Amor é o esforço deliberado para atingir a finalidade de manter o vínculo entre sujeito-objeto. Constitui-se num conjunto de ações racionais que permitem que o desejo pelo objeto possa manter-se enquanto desejo, apesar das vicissitudes da vida.

Quando direcionado para um indivíduo, o amor se desdobra em duas formas: o amor para com os outros e o amor para consigo mesmo.

Assim como no Diagrama de Nolan, podemos pensar no amor a partir de dois parâmetros, um eixo X e um eixo Y. O eixo X representa o nível de Amor para com os outros. O eixo Y representa o nível de Amor próprio. Com este dois parâmetros temos as seguintes análises:

  • Pouco amor próprio e pouco amor para com os outros são características dos Insensíveis.

  • Pouco amor próprio e muito amor para com os outros são características dos Altruístas.

  • Muito amor próprio e pouco amor para com os outros são características dos Egoístas.

  • Médio amor próprio e médio amor para com os outros são características dos Românticos.

  • Muito amor próprio e muito amor para com os outros são características dos Amoristas.

Com este pano de fundo, podemos falar sobre a relação entre os cinco espectros políticos e as cinco formas de amar.

1 – Totalitarismo e Insensibilidade

De acordo com o Diagrama de Nolan, os governos totalitários são aqueles que restringem ao máximo as liberdades dos indivíduos. Neste sentido, determinam economicamente a produção, a distribuição, as relações trabalhistas, os juros etc. Individualmente, controlam decisões que pertencem aos indivíduos, como forma de casamento, substâncias ingeridas entre outros.

Historicamente houve diversos governos que restringiram ambas as liberdades. Consideraram-se os detentores da moral e os responsáveis por conduzir o povo pelo caminho correto que estabeleceram. A Alemanha nazista é um exemplo disto. O governo do terceiro heich, controlava com mão de ferro a economia, conduzindo a produção para o progresso. Os indivíduos não eram donos de si, mas pertenciam à nação. Suas vidas deveriam ser vividas para a realização da nação perfeita, como idealizou Hitler. Algumas pessoas não deveriam fazer parte desta nova nação e, embora tivessem nascido naquele local, foram mortas. Assim, homossexuais, judeus, ciganos e deficientes físicos serviriam ou como cobaias para a melhoria biológica da raça ariana ou como trabalhadores em campos de concentração. Os demais teriam boa alimentação, praticariam esportes, produziriam arte dentro de padrões clássicos de beleza. A indústria deveria trazer autonomia ao país, ser forte, empregar e produzir o suficiente para todos.

Não somente a Alemanha nazista viveu tal regime, como outros países. Cuba, no pós revolução socialista, também presenciou a intervenção estatal sobre a economia e os indivíduos. Toda a produção era controlada pelo estado e a distribuição também. Sem as trocas irracionais das sociedades capitalistas, era preciso que fosse determinado o mínimo suficiente para cada cidadão, com a finalidade de não haver desigualdade. Com isto, os trabalhadores recebiam tickets do governo para trocar por alimentos. Tal medida controla tanto a opção de escolha individual quanto a economia.

Além destas formas de controle, como determinar o que será plantado, quais drogas serão proibidas ou impedir casamento entre indivíduos do mesmo sexo, sistemas totalitários combatem principalmente a liberdade de expressão. Ao indivíduo não é permitido falar abertamente o que pensa, pois pode comprometer a estrutura social desejada. Emitir opinião contra o governo é como soprar o castelo de cartas.

A forma de coibir os indivíduos a exercerem suas liberdade civis e econômicas é através do uso da força. A força pode ser tanto policial quanto psicológica. A força policial está presente naqueles que usam uniformes determinados pelo governo, com poder de fazer valer as ideias dominantes através de literal uso da força. Se um indivíduo, ou grupo de indivíduos, está falando em praça pública contra o governo, basta enviar uma força policial-militar para bater, expulsar, reprimir, calar ou matar a manifestação. Porém, com tal uso de força policial os indivíduos ainda se sentem livres para, secretamente, pensarem, falarem e discutirem o que suas mentes quiserem. É por isto que governos totalitários se utilizam de outra forma de coerção, muito mais sutil, a coerção psicológica. Orwell apontou muito bem o assunto em seu clássico 1984. O governo que olha tudo reprime muito mais. Deste modo, o medo é o grande aliado. É preciso que as pessoas saibam que estão sendo vigiadas, que seus amigos podem denunciá-las, que seus parentes podem entregá-las e que não podem confiar em ninguém para falar aquilo que desejam.

Conclui-se que restrição da liberdade é aumento do medo, pois se cada passo e escolha tomada é controlada, e todo erro é castigado, então sempre haverá o medo de escolher por si mesmo. Se o indivíduo perde a autoconfiança para decidir por si mesmo, torna-se dependente dos outros. O totalitário é aquele que torna os outros dependentes de si ao tolher-lhes as liberdades de serem o que são.

Paralelamente há muito em comum entre a ausência de liberdade e a ausência de amor. Aquele que não ama a si mesmo e nem ama os outros é a pessoa que definitivamente não ama. Não ama porque este é o caminho que escolheu para si. É a forma como arquitetou seu império dos relacionamentos. Incapaz de amar é a descrição do insensível. A insensibilidade é a incapacidade de sentir.

Tudo está tranquilo quando tal forma de viver pertence à individualidade do insensível. Entretanto, assim como aquele que pensa ser a liberdade algo ruim para as demais pessoas, o insensível pensa ser o amor algo ruim para os outros. Desta forma, ambos assumem o papel de salvadores da humanidade.

O jogo da salvação torna-se a brincadeira mais antitética possível. Destrói-se a liberdade em nome da libertação e afoga-se o amor em nome da amabilidade.

O insensível não é apenas o incapaz de amar, é aquele que impede que os outros amem. Não compreendendo o que seja o amor, vislumbra um universo governado pela burocracia sentimental. Sem o desejo, todas as formas de relacionamento tornam-se puramente materiais. A racionalidade excessiva, aquela que impede o sentir, transforma os relacionamentos em meros acordos contratuais visando – não manter o desejo entre sujeito-objeto, mas – garantir que o relacionamento aparente seja apenas um contrato formal.

A insensibilidade vê no amor um mal. Vê no amor o fator responsável pelos conflitos e desordens, quando este é o que efetivamente consegue implantar a paz.

2 – Socialismo e Altruísmo

Apesar das palavras socialismo e altruísmo possuírem um grande prestígio na sociedade são, aqui, apenas referenciais de um prática política e amorosa incompleta.

A marca do pensamento socialista é ser a favor de grande liberdade das formas de ser, isto é, das liberdades individuais de cada um efetivar sua existência da maneira que desejar. Para que isto ocorra o socialista defende que a economia não seja livre, pois, para ele, uma economia descontrolada impediria que as pessoas pudessem efetivar suas vontades, ficando presas às suas condições econômicas.

Para que todos possam atingir a plenitude da existência, o socialista defende uma equiparação material. Se houverem pessoas com propriedade e outras sem, se houverem detentores dos meios de produção e detentores de suas forças de trabalho, haverá um impedimento por conta da exploração e alienação decorrentes do modo de produção do mercado livre.

Um dos pilares do pensamento que visa tal igualdade é o altruísmo. Coloca-se o outro como o centro de tudo. Não importa muito o que o indivíduo quer realizar para consigo mesmo, mas o que pode realizar tendo em vista o outro.

Muitos podem pensar que esta forma de amar do altruísta é linda, porém esconde problemas bem graves. Colocar outros como prioridade é dissolver a si mesmo no emaranhado dos outros. É também exigir que o outro se dissolva em meio aos outros. Com isto, temos a morte da individualidade em nome da coletividade.

Diferente da tirania e insensibilidade que impõem um não-amor a todos a partir da insensibilidade interior do sujeito, temos, em nome de uma abstração que é o benefício de todos, um desejo para que todos sejam iguais. É o amor que busca a padronização ao mesmo tempo em que tal padronização levanta a bandeira da liberdade do amor. Esta contradição é facilmente notada quando em nome da liberdade sexual deseja-se que todos libertem-se sexualmente. Em nome de uma liberdade de gênero deseja-se inverter a polaridade ao invés de eliminá-la.

O amante altruísta é aquele que permitirá ao seu companheiro tudo o que este desejar, até o dia em que o outro perceberá que está se relacionando com um espectro, incapaz de ser o que se é e muito mais preocupado com o que os outros vão dizer de si mesmo.

3 – Conservadorismo e Egoísmo

Conservar valores é negar novos valores, é ser egoísta em ceder mudanças. O conservadorismo político é marcado pela defesa dos valores tradicionais. Significa, de certo modo, ter ressalvas para com as liberdades individuais, pois estas podem corroer alguns pilares que têm sustentado a civilização ocidental durante os séculos.

Os conservadores são, então, contra o casamento gay, a liberação das drogas, o aborto, a prostituição e todo costume que foge das convenções e da normalidade, como as pessoas que modificam seus corpos com tatuagens e piercings.

Por outro lado, defendem a liberdade econômica. São a favor da sociedade baseada na garantia da propriedade privada e na liberdade de cada um buscar o bem que deseja a partir do trabalho e das interrelações de uma economia livre.

O conservadorismo está relacionado ao egoísmo pois defende tudo a partir de sua própria interpretação do mundo. Quer o que é bom para si mesmo, ou seja, uma sociedade livre economicamente, mas que respeite os valores tradicionais.

Egoísmo não é virtude. Como dizia Aristóteles, “o egoísmo é condenado, como convém; ser egoísta, porém, não significa simplesmente amar a si mesmo, mas sim amar a si mesmo em excesso”. Por mais que a natureza do interesse próprio do amante seja considerada e não apenas o a quem se destina (ele mesmo), a natureza justa e moral do interesse do egoísta que age visando seu interesse próprio não retira o problema do outro que é desconsiderado em seu projeto pessoal egoísta. É certo que muitos que se consideram egoístas no sentido randiano estão muito mais próximos do amante amorista, que abordaremos mais adiante.

O egoísmo nada tem a ver com individualismo, tem a ver com amar a si mesmo sobre todas as coisas. Deste amor resulta a vontade de fazer do mundo o que se deseja pra si e não um ambiente para que toda individualidade possa ser efetivada. O conservador egoísta não deseja que determinadas individualidades sejam efetivadas.

O amante egoísta é como o conservador. Vê o mundo a partir de sua própria perspectiva. Ama tanto a si mesmo que é incapaz de amar o outro. O outro existe apenas em função de seu amor por si. Com isto, o parceiro do egoísta é impedido de ser o que deseja, precisa se adequar aos caprichos para que o relacionamento possa se manter dentro da “tradição” esperada e defendida pelo egoísta.

4 – Centrismo e Romantismo

As pessoas que situam-se ao centro quando indagadas sobre suas convicções políticas o fazem geralmente sob os auspícios da moderação, clareza e reflexão. Em nome do equilíbrio discordam dos tiranos que desejam suprimir as liberdades e dos libertários que intentam maximizar as liberdades. A pergunta que imediatamente salta é: como os centristas podem estar relacionados ao romantismo? A resposta é mais óbvia do que parece.

Romantismo, pois diz-se do romântico aquele que não possui um alvo objetivo. O romântico é aquele amante confuso, perdido dentro de sua utopia, isto é, sua idealização imaginária de algo sem muito embasamento. Não há um fundamento sólido para o que os românticos defendem. As ideias estão perdidas e constantemente entram em conflito umas com as outras.

O mesmo lamaçal de confusão do qual o romântico não consegue escapar também prende o centrista. Pensa politicamente que é preciso que as pessoas sejam livres pra consumir o que desejarem, mas é preciso proibir algumas coisas para o consumo. Pensa que as pessoas precisam de liberdade para empreender, mas defendem a necessidade de uma burocracia para tal empreendimento. Não há princípio que norteie seus pensamentos e suas posições. Tudo é uma constante relativização de princípios.

O amante romântico não coloca a si mesmo nem o outro como prioridade. Ama a partir deste limbo confuso no qual o outro é prioridade, mas dentro de diversas condições. Em outro momento e sob outras condições prioriza a si mesmo.

Esta indecisão coloca o outro numa posição extremamente complicada e insegura. Nunca é possível saber o modo como o outro irá amar. A incerteza é bem pior do que a certeza da insensibilidade, do altruísmo ou do egoísmo. Um relacionamento com alguém que ama de um modo que lhe permite amar de diversas formas é uma escolha boa apenas para quem não deseja rotina e que consegue lidar bem com a contradição cotidiana. Precisa estar preparado para que as convicções mudem e que, de um dia pro outro, o balanço entre o amor de si e o amor ao outro seja realizado com pilares totalmente diferentes do anterior.

Não é de se estranhar que a maioria das pessoas se situe nesta posição confortável e maleável de agir como a situação lhe convier. É exatamente isto que torna a maioria dos relacionamento conflituosos. Quais são os princípios que norteiam as prioridades deste modo de amar? Nenhum. Quando tudo é possível nada garante a continuidade. E quando não há segurança no amor sabemos as consequências.

5 – Libertarianismo e Amorismo

Se sempre é necessário explicar o conceito político libertário, não poderia ser diferente com o termo amoroso referente, o amorismo.

Começando com o termo libertarianismo, podemos dizer que o libertário é o defensor de liberdades plenas. Defende um alto grau de liberdade econômica e um alto grau de liberdade individual. Possui a ideia de que ninguém deve conduzir ou ditar como os outros devem agir e viver. Cada indivíduo deveria ser efetivamente livre para ser o que desejar e para realizar o que quiser, desde que isso não agrida diretamente a liberdade dos demais.

Quando pensamos na questão do amor, a partir dos parâmetros aqui abordados, podemos dizer que um alto grau de amor próprio e de amor para com o outro produz um amorista. O amorismo que trato aqui é o termo encontrado para o “ideal do amor”, assim como o libertarianismo é o “ideal da liberdade”. Neste sentido, o libertário é o defensor da liberdade assim como o amorista é o defensor do amor.

O amor em sua totalidade é aquele que ao mesmo tempo em que ama si mesmo, o que se é, também ama o outro em sua individualidade e originalidade. É o amor que entende que todos são diferentes e que precisam amar a si mesmos do mesmo modo como amam o modo como o outro é, sem destruir o amor por si mesmo.

Portanto, o amorista é aquele que busca um alto grau de amor próprio e amor para com o outro. De fato, o amorista não concebe uma separação entre as duas formas de amar. Só existe amor se for amor completo. Amar a si sem amar o outro não é amor é egoísmo. Amar o outro sem amar a si é negar a si e a negação de si mesmo não é amor. Este amante é aquele que compreendeu que para que um relacionamento entre sujeito-objeto faz-se necessário não apenas amar o objeto desejado. É preciso que o desejo esteja em si, no outro, para o outro e para si mesmo.

Este amor em sua totalidade não é uma conciliação entre os amores. Não há conflito entre amar a si e ao outro. A maximização do amor é que permitirá que exista o respeito mútuo às individualidades. Ninguém precisa perder para que exista o amor, não em termos de amor próprio. As concessões ocorrem não por perda de amor próprio, mas apenas quando o amor próprio viola o amor próprio do outro. É aqui que reside o diferencial entre este amante e os outros. Ele não renuncia, ele compreende a dimensão necessária para que projetos diferentes possam ser perseguidos ao mesmo tempo.

Considerações

Com o que vimos aqui, podemos retomar ao ponto mais importante. Que tipo de amante temos sido? Não há um quiz para que possamos ver o grau de amor próprio e de amor para com o outro. É preciso refletir se em nosso lugar nas decisões amorosas temos sido levados a negar o amor, a viver na confusão do relativismo ou se temos conseguido amar a nós mesmos no mesmo grau em que amamos o outro.

Se politicamente escolhi a liberdade em seu grau máximo, porque não escolheria o amor em sua plenitude? A compreensão da ideia de não violar as liberdades alheias precisa se expandir para a ideia de não impedir que as pessoas amem a si mesmas. Como compôs o grande músico norte-americano, Leonard Cohen, “Love is not a victory march”.

Amar não é batalhar para impor a si e nem uma abstenção de si. Amar não é uma formalidade ou um teatro. Amar não é viver eternamente conciliando duas formas de amar até a exaustão da insegurança. Que sejamos mais amorosos e menos insensíveis, altruístas, egoístas e românticos.