A representação do homeschooling na novela Carrossel

Clementina

Introdução

A prática do homeschooling é, cada vez mais, debatida no Brasil. A importância do tema deixou de ser matéria de pedagogos, políticos e especialistas em geral e se tornou assunto do cotidiano. A mídia televisiva, de olho nas polêmicas, tem sempre uma reportagem sobre pais que retiraram seus filhos da escola para ensiná-los em casa.

A visibilidade do tema alcançou seu sucesso com uma longa matéria veiculada no dia 17 de Fevereiro num dos programas com maior índice de audiência, o Fantástico. A reportagem mostrou a história de Caleb, 13 anos, que há três anos não frequenta a escola. Relembrou o caso do Cléber Nunes que foi multado apesar de seus dois filhos passarem no vestibular para Direito ainda adolescentes.

A pedagoga consultada pelo Fantástico, Maria Stela Santos Graciani, afirmou que a criança fora da escola “perde a essência da convivência comunitária” (Fantástico, 2013). Esta tem sido a crítica recorrente dos críticos do ensino domiciliar. Para diversos educadores, as crianças perdem o significado de pertencer a algo maior do que a família. Se a família é a primeira esfera de socialização, é preciso que ela entre em contato com outras esferas de socialização.

Concordando com Graciani, Carlos Cury (2006, p. 671) aponta que, “como uma agência socializante, a instituição escolar propicia tanto a transmissão do acúmulo de conhecimentos por meio do desenvolvimento de capacidades cognoscitivas quanto a transmissão de normas, valores, atitudes relativas à vida social”.

É certo que a escola é um ambiente socializante. O problema dos críticos do homeschooling é pensá-la como o único ambiente socializante. A escola não é o único ambiente socializador e não há motivos para pensar que é nela que ocorre o melhor processo de socialização. “Competências para argumentar, falar em público, resolver contradições e propor ações conjuntas” (Menezes, 2012, p. 106) não são exclusivamente adquiridas na escola. A experiência de tirar dúvidas e falar na frente de colegas é uma experiência de socialização e satisfação presente apenas em utopias dos que há tempos não frequentam o espaço escolar.

A defesa da ideia que crianças educadas em casa possuem problemas de socialização ou dificuldade de comunicação não é comprovada por pesquisas[1]. O estudo de Medlin (2000), por exemplo, aponta que as crianças educadas em casa possuem o mesmo desenvolvimento da sociabilidade e são mais maduras do que as que frequentam a escola.

Representação

Há enorme dificuldade em compreender o que é diferente. No cotidiano das vivências sociais o ser humano cria representações do que considera diferente. Parte se seu próprio universo para designar aquilo que lhe causa estranheza. Neste sentido, parece haver uma representação intelectual e emocional do homeschooling.

A defesa de uma escola para todos e de uma educação que alcance todas as crianças transforma-se numa maneira de enxergar o universo educacional. Os críticos do homeschooling, ao defender que todas as crianças sejam educadas, conseguem apenas compreender e aceitar o processo de ensino e aprendizagem dentro do ambiente escolar.

Uma das imagens elaboradas é a de aprisionamento. Em casa, as crianças ficariam debaixo da arbitrariedade de seus pais. Viveriam confinadas, sem contato com outras crianças, sem frequentar parques, cursos, praças, clubes, igrejas, acampamentos, teatros, cinemas etc. Este aprisionamento apontado geraria, para os opositores do homeschooling, problemas de socialização, como apontado anteriormente.

Outra representação na mente de muitos pedagogos é a figura de pais despreparados para o ensino. É particularmente engraçado ouvir pedagogos progressistas defendendo um professor que detenha conteúdos e seja capaz de transmiti-los. A educação progressista coloca o professor como um mediador do conhecimento e nunca como um detentor de saberes. Nessa relação professor-aluno priorizam a horizontalidade, o aluno-professor e o professor-aprendiz. Portanto, sempre é bom lembrar que no ensino doméstico também há espaço para a realização de uma prática pedagógica na qual “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, 1998, p.25).

Neste ideocentrismo dos especialistas em educação o homeschooling é a expressão máxima de descaso, da violência e do abandono intelectual. Criticam o diferente e desconhecido atribuindo à educação realizada em casa os mesmo adjetivos que poderiam ser utilizadas para as escolas estatais.

O homeschooling na novela Carrossel

Ao ler os diversos críticos do homeschooling, pode-se perceber a elaboração de uma representação, um estereótipo, dessa modalidade de ensino. Diferente do enfoque jornalístico da matéria da Rede Globo, a emissora SBT tratou do assunto em sua novela infantil, Carrossel, de forma bem pejorativa. Sem a necessidade de ouvir os dois lados de uma história, os roteiristas elaboram a sua representação do homeschooling. Neste caso, a representação é muito parecida com a representação dos pedagogos citados anteriormente.

A representação do ensino domiciliar na novela Carrossel começa com uma bola que cai na casa vizinha à escola e ao pular o muro para recuperá-la Mário conhece Clementina, que vive com duas tias. A primeira afirmação feita é de que as tias parecem bruxas. Retornando à escola, o garoto é indagado e fala que foi pular o muro e que conheceu uma garota na casa ao lado.

A professora Helena decide visitar as tias para saber da garota. Clementina é mantida em casa pelas tias, Anita e Ruth. As senhoras dizem que as escolas são perigosas e que ensinam tudo o que a sobrinha precisa saber. Ao se dirigir à garota, a professora pergunta se ela deseja voltar à escola. Clementina responde que não quer voltar, mas sua fala é carregada de uma tristeza e medo das tias. A professora vai embora e no mesmo capítulo há uma cena na qual a garota fala para si mesma no quarto que não quer mais viver sozinha.

As tias são retratadas como conservadoras pela professora Helena, pois não aceitam o novo. Ela decide pesquisar na internet sobre cárcere privado, pois quer fazer algo pela garota. A professora acha que deve denunciar o caso de Clementina à polícia. Enquanto a professora pensa na denúncia, as crianças agem para libertar a menina. Ela deixa uma carta às tias que saíram e os garotos a levam para uma casa abandonada.

A história prossegue, mas este trecho da semana de 11 a 15 de Março de 2013 nos permite alguns apontamentos.

Considerações

É interessante observar como a situação é retratada pela novela. É claro que aprisionar uma criança em casa é algo horrível. Não foi por acaso que Stephan Kinsella (2008) escreveu:

os pais têm mais direitos sobre a criança do que quaisquer estranhos, por causa de seu elo natural com a criança. Entretanto, quando a criança se “apropriar” de seu corpo, estabelecendo o necessário elo objetivo suficiente para estabelecer a autopropriedade, a criança se torna um adulto, por assim dizer, e agora passa a ter uma melhor reivindicação sobre seu corpo em relação a seus pais.

Esta abordagem nos leva a pensar que, enquanto tutores temporários, os pais não devem interferir na propriedade (autopropriedade) de seus filhos, muito menos suprimir suas liberdades tornando suas casas aprisionamentos[2].

O ponto principal não é o cárcere privado, mas o retrato deste cárcere como algo idêntico ou parecido com o ensino domiciliar. De fato, há possibilidade do homeschooling ser utilizado como desculpa para o aprisionamento de crianças. O problema é esta exceção ser colocada como o modelo comum e esperado de todo mundo que critica a instrução escolar e passa a educar seus filhos em casa.

A força da representação está presente nas características de Clementina. A garota é pálida, magra e de semblante triste. É o retrato da falta de cuidados. O penteado de longos cabelos trançados e as roupas fora de moda representam uma criança que tem negado o convívio com o mundo. São a representação estereotipada de um conservadorismo religioso, do qual as tias fazem parte.

Está construída na mente das crianças uma imagem do ensino doméstico. Como esponjas, absorveram imagens, sentimentos, valores e significados. Apesar do homeschooling começar a ser tratado pela mídia brasileira com a atenção que o tema merece, a novela infantil diz às crianças que educação em casa é assunto que pode ser abordado pela família e, obviamente, a imagem que virá à mente das crianças não será a imagem veiculada pelas reportagens com as famílias brasileiras, mas a tristeza e a falta de liberdade da Clementina do Carrossel. As crianças pensarão ter a tarefa de combater as famílias que não mandam seus filhos para a escola.

Bibliografia

CURY, Carlos Roberto Jamil. Educação escolar e educação no lar: espaços de uma polêmica. Revista educação e sociedade. Campinas, v.27, n.96, p. 667-688, 2006.

FANTÁSTICO. Pais lutam pelo direito de educar os filhos longe da escola. Rio de Janeiro: Rede Globo, 17 de fev de 2013. Programa de TV. Disponível em: http://g1.globo.com/fantastico/videos/t/edicoes/v/pais-lutam-pelo-direito-de-educar-os-filhos-longe-da-escola/2411678/ Acesso em: 15 de mar de 2013.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 9. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

KINSELLA, Stephan. Como nos tornamos donos de nós mesmos. Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2008. Disponível em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=136. Acesso em: 22 de mar 2013.

MEDLIN, Richard G. Home Schooling and the Question of Socialization. Peabody Journal of Education, 1532-7930, v. 75, Issue 1, 2000.

MENEZES, Luiz Carlos de. Educação domiciliar: uma negação da escola. Nova Escola, São Paulo, Ano XXVII, n. 254, ago. 2012, p. 106.


[1] Cf.: MEDLIN, Richard G. Home Schooling and the Question of Socialization. Peabody Journal of Education, 1532-7930, v. 75, Issue 1, 2000. Ver também a tese de doutorado: SHYERS, Larry. Comparison of Social Adjustment Between Home and Traditionally Schooled Students. Dissertation (Doctor of Phylosophy) – University of Florida, 1992.

[2] A criança deve ser livre para poder sair de casa e é este o argumento de Rothbard para a realização da maioridade, a condição de poder se autossustentar. Cf.: ROTHBARD, Murray. As crianças e seus direitos. In: A ética da liberdade. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010, p. 159-175.

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2 comentários sobre “A representação do homeschooling na novela Carrossel

  1. Ótima essa informação, , estou desenvolvendo esse tema no meu tcc, se tiver mais artigos sobre o assunto e puder me enviar eu agradeço imensamente.

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