Espinosa e Nietzsche: A inspiração do instinto, uma filosofia para a vida

Nietzsche

Numa carta publicada postumamente, Nietzsche surpreende a todos ao afirmar: “Estou completamente espantado, totalmente encantado. Tenho um precursor e que precursor! Mal conhecia Espinosa: o ter-me voltado para ele agora foi inspiração do “instinto”.”[1] Conhecido por ser um filósofo destruidor da tradição, crítico e reformulador do pensar filosófico, Nietzsche, ao comparar-se com Espinosa, deixa dúvidas acerca dos possíveis diálogos com seu precursor.

As proximidade são: a negação da liberdade da vontade, da teleologia, da ordem moral do mundo, do não-egoísmo e do mal. Meu intuito inicial era tecer considerações acerca das diferenças entre autoconservação e auto-superação, visto que Bárbara Ramacciotti[2], num primeiro momento, coloca ambos os autores como concordantes do não-egoísmo como necessários à autoconservação. Entretanto ao término de seu texto[3], apresenta o parágrafo 13 de Para Além de Bem e Mal, mostrando as distâncias entre os autores e a crítica nietzschiana da autoconservação.

Retornei à afirmação do filósofo alemão, em busca de algo novo. Os comentários sobre esta carta são muitos e, como que por inspiração de meu instinto, encontrei a fala “inspiração do instinto”. Existe possibilidade de diálogo entre os autores no que concerne a inspiração e o instinto?

Podemos tratar, em Espinosa, o instinto como paixão. Para o autor, a essência da natureza humana leva o nome de conatus. O conatus é o esforço para a preservação na existência, para vencer as dificuldades externas e que, ao expandir-se, se realize de forma plena. Paralelamente surgem dois conceitos: ação e paixão. A ação irá incorporar os obstáculos externos, resultando num aumento do conatus. A paixão, ao contrário, deixa-se vencer pelos fatores exteriores, diminuindo o poder do conatus.

Apesar da paixão resultar numa diminuição do poder do conatus ela, assim como a ação, procura conservar sua potência. A diferença é que a primeira é guiada pela imaginação, e a segunda pelo intelecto. Deixar-se guiar pela imaginação, resulta numa busca por bens exteriores, além de bens contrários. Esta oposição entre os bens (tristeza e alegria, ódio e amor, medo e coragem) é que enfraquece o conatus até o seu aniquilamento.

O que fazer então? Devemos nos livrar de nossas paixões, aqui tratadas como instintos? Para os manuais de filosofia, Espinosa, como racionalista, está entre os autores que propõem a negação das paixões. Entretanto, as paixões são necessárias e fazem parte de nossa natureza humana[4]. Ter ou não paixões independem de nossa vontade. A proposta será conhecer as leis que regem a nossa natureza, deixando-nos vencer somente por paixões positivas. Não temos que vencer uma paixão com uma ação, e sim, uma paixão com outra paixão.

O homem livre, para Espinosa, é o que age além do bem e do mal, com a força de seu desejo e compreensão. Não é medroso, não é odioso e nem possui remorso, pois tem o domínio do que lhe é exterior sem ser vítima ou conseqüência das paixões negativas. Em sua reformulação moral, destrói valores como: bem, mal, justo, injusto, perfeito, imperfeito. Para ele, tais “conceitos”, ou melhor, simplesmente meros nomes, são apenas abstrações. Não há concretude, por exemplo, do feio ou belo. Esses nomes surgem de comparações, sejam dos homens entre si ou entre objetos.

Nietzsche segue a trilha iniciada pelo holandês. Segundo o autor alemão, o cristianismo junto com o pensamento socrático-platônico possui grande influência no ideal ocidental. Por causa disto, há o que Espinosa (e muitos outros) criticou: a ascensão da razão sobre a paixão; pois, como dito anteriormente, negar as paixões é negar a natureza humana. As alegrias terrestres e os instintos fazem parte do ser humano. A proposta nietzschiana é recuperar a vida, e para tal tarefa faz-se necessário transmutar os valores cristãos. Valores estes que impõe resignação e renúncia como virtudes.

Os conceitos como bem e mal tomam nova forma, pois para Nietzsche não existem sentidos originais. As palavras (nomes gerais para Espinosa) não são mais do que interpretações, e sua invenção se deu por parte das classes dominantes. Com isso, o bem, o mal, o justo, o injusto, o belo e o feio são uma imposição de interpretação, e não uma indicação de significado.

Outra diferenciação entre Nietzsche e Espinosa pode ser encontrada nas chamadas “paixões positivas”. Se para o holandês o amor é uma paixão positiva, que guiada pela consciência nos fará alcançar o pleno conhecimento de nós mesmos e de Deus; o alemão dirá que amor ao próximo, bondade, piedade, humildade são inferiores. Tais valores pertencem à moral do escravo, ou rebanho, e a transmutação dos valores é que levará o homem a ir além-do-homem. Assim, será forte o que trocar as virtudes do cristianismo por orgulho, risco, personalidade criadora e amor ao distante.

Se Espinosa afirma que além do bem e do mal o homem livre não sentirá medo, ódio e remorso; o super-homem de Nietzsche, também além do bem e do mal, buscará o ar puro das montanhas, o perigo, o diferente e com isso será capaz de criar seus próprios e novos valores.

O conatus espinosano vive em constante atividade, visando preservar-se. Deve tomar cuidado com os opostos para não aniquilar-se. A não vitimação por parte das paixões também se encontra em Nietzsche. Para Espinosa a conservação do conatus leva para a vida, para o conhecimento de si e do todo. Como resultado temos a vida, porque não há espaço para a morte, para pensar a morte. Se somos modos finitos dos atributos infinitos de Deus, apenas modificamos nosso modo de existir e não morremos.

De certa forma, podemos encarar a construção espinosana como um escape da “questão morte”, por mais que o autor fale contra a idéia platônica e cristã de conhecimento como preparação para a morte e vida eterna. Conhecer a totalidade é sim conhecer a natureza humana, os modos e atributos. Tal conhecimento não é preparatório para a morte? Ou melhor, tal conhecimento não é de alguma maneira confortador? Se somos parte de Deus, temos um tempo de existência, de expressar certos atributos divinos, ficaremos aliviados em saber que não há morte. Um dia deixaremos de expressar certos atributos e voltaremos a compor a substância infinita de Deus.

Ao contrário, Nietzsche não propõe a fuga da aparência, da mudança, da morte, do esforço, do desejo. Fugir disto é aniquilar a vida. Vivemos justamente numa realidade de vida em que tudo é aparência, onde as palavras não possuem significado original, onde a mudança e o perigo estão sempre presentes, e onde há possibilidade de novas construções valorativas.

De forma instintiva, por inspirações não racionais, podemos alcançar a plenitude da vida, as condições fundamentais da própria vida. Isso não significa deixar sentimentos de lado, muito menos abandonar a razão. Vivenciar o ódio, orgulho, medo não diminui nosso conatus, mas alimenta a nossa vontade de potência para criar o novo.

Referências Bibliográficas:

ESPINOSA, B. Ética demonstrada à maneira dos geômetras e Tratado da Correção do Intelecto. 3ª ed. São Paulo, Abril Cultural, 1983 (col. Os Pensadores).

NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra e Para Além de Bem e Mal. 3ª ed. São Paulo, Abril Cultural, 1983 (col. Os Pensadores).

RAMACCIOTTI, B.L. “Espinosa e Nietzsche: entre a paixão e a vontade”. Cadernos Espinosanos IV, USP, 1998.


[1] Nietzsche 9, Carta a Overbeck, 30 de Junho de 1881

[2] Ramacciotti, B.L., Cadernos Espinosanos IV, p. 55-74, 1998

[3] “Espinosa e Nietzsche: entre a paixão e a vontade. Conexões para uma fisiopsicologia”

[4] O homem é formado por corpo e alma. Corpo é um modo finito da extensão, e a alma é um modo finito do pensamento. Extensão e pensamento são dois dos infinitos atributos da substância infinita de Deus.

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Murray Rothbard – Educação: Livre e Obrigatória

Chega aos leitores lusófonos o texto de Murray Rothbard (1926-1995) sobre a educação, que tive o prazer e a honra de traduzir e redigir este prefácio à edição brasileira. Publicado em 1972, Educação: Livre e Obrigatória é um ensaio no qual o economista e filósofo estadunidense condensa a história da educação obrigatória no ocidente, desde a formação das nações modernas, e argumenta contra a interferência do estado na esfera educacional.

Vivemos numa época na qual diversas máximas são proclamadas cotidianamente. É comum ouvir de jornalistas, especialistas e políticos uma convocação para a melhoria da educação. Dizem que o futuro do Brasil começa na escola e que é preciso mais políticas educacionais. Neste livro, Murray Rothbard demonstra o perigo existente por de trás destas ideias.

Em primeiro lugar, “é claramente absurdo limitar o termo “educação” para um tipo de escolaridade formal”. Rothbard inicia a primeira parte de seu livro discutindo o desenvolvimento e a diversidade dos seres humanos, os tipos de instrução e a responsabilidade pela educação das crianças. Este capítulo inicial contém enorme material para discutir problemas vivenciados na realidade brasileira, como é o caso da criminalização do homeschooling (ensino doméstico). Outrossim, é neste momento que apresenta a sua defesa da não intervenção do estado na educação apontando a diferença entre uma educação obrigatória e uma educação livre.

Rothbard não é pedagogo e nem discursa sobre questionamentos sobre como se deve ensinar. É preciso que o leitor esteja atento a isto, pois o ponto central é demonstrar que a instrução pública obrigatória é uma política totalitária.

O segundo capítulo dá o tom do restante do livro. Passando rapidamente pela educação na Grécia Antiga e na Idade Média, Rothbard investiga e mostra que foi a Reforma Protestante o movimento que impulsionou a Europa numa cruzada pela instituição de uma escolaridade compulsória. O pensamento dos reformadores influenciou principalmente a Prússia, o primeiro estado moderno a ter um sistema de educação obrigatória. Este apontamento histórico não é meramente trivial quando se observa uma vasta literatura em história da educação que aponta a Revolução Francesa como o movimento que impulsionou a obrigatoriedade de uma educação básica.

No terceiro e último capítulo Rothbard prossegue com a investigação histórica. Analisa o debate e a construção da obrigatoriedade do ensino público nos Estados Unidos. Finaliza apontando cinco considerações sobre o atual cenário do ensino, inundado de ideias coletivistas que têm levado a educação à bancarrota.

Os dados e argumentos apresentados pelo economista servem de enorme estímulo aos leitores brasileiros. É preciso investigar a origem da escolarização obrigatória no Brasil. O absolutismo ilustrado de Marquês de Pombal possui muito em comum com o despotismo esclarecido prussiano. A história de como o tema da educação foi tratado pelas inúmeras constituições, após a independência de Portugal, demonstra claramente como as crianças deixaram de ser responsabilidade da família e passaram a ser cooptadas pelo estado.

Mais recentemente podemos observar o uso que a Ditadura Militar fez do ensino público obrigatório, doutrinando as crianças com as disciplinas de Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira. No atual cenário brasileiro vemos outros usos políticos-ideológicos com a obrigatoriedade de determinados conteúdos, como a História Africana.

O controle do MEC sobre currículos, programas, instituições privadas e a implantação de avaliações nacionais não é algo recente, pois remonta ao Ministério do Interior da Prússia. Deste modo, reproduzimos no século XXI um modelo de gestão política da educação próximo ao modelo do estado mais despótico da história da Europa.

Espero que as indagações contidas neste livro possam ajudar a desfazer alguns mitos que permeiam o debate sobre a educação. Se você, leitor, ainda pensa que é dever do estado cuidar da educação, recomendo a leitura desta obra. Caso você defenda o fim do controle estatal sobre o ensino, este livro é uma enorme fonte de argumentação.

Prefácio escrito para o livro

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Capa Simples (R$ 15,00)
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Ansiedade Periódica

Há um período no ano pelo qual as pessoas anseiam. Pode-se pensar no Natal, por causa dos presentes, na Páscoa por conta dos chocolates e no Aniversário devido à festa. Apesar dessas datas festivas há ainda um período muito mais esperado, as férias.

As férias são, geralmente, um mês de descanso após onze meses de trabalho. Quebram a rotina de submissão, responsabilidade, prazos e metas. É o merecimento justo para o tempo de alta produtibilidade. Livrar-se dos dias corridos, do estresse, do cumprimento de horários é o que anseia um grande número de pessoas.

Entretanto, há quem fique ansioso não por se livrar do trabalho, mas por ter de interrompê-lo. Os viciados em trabalho pensam nas férias porque não querem parar de trabalhar. Ficam nervosos e perdidos com o tempo livre. Preferem uma vida cheia de tarefas.

Portanto, seja sonhando com praias paradisíacas, cheias de pessoas bonitas e bebida fresca, ou tendo pesadelos por ficarem afastadas do ambiente de trabalho, as pessoas passam o ano pensando em uma única coisa. Pensam nas sagradas, ou malditas, férias.

 

 

escrito para a primeira aula de Produção Textual na Educação