Catando Sentimentos

Certamente a área sentimental é aquela com a qual temos mais dificuldade de conviver. A maioria de nós já viveu certas decepções amorosas ou possui dificuldade em se compreender ou saber o que sente. Foi em meio a conversas relacionadas com o lado sentimental da vida que ouvi a expressão “estou catando sentimentos”. Mas o que seria isso?

Uma primeira interpretação, que considero mais superficial, é pensar que catar sentimentos significa pegar aqui e acolá algum pseudo-sentimento para preencher algo ou atribuir algum significado momentâneo à vida. A vida precisa de significados, mas essa bricolagem emocional não é catar sentimentos, é tropeçar em fragmentos de sentimentos que foram lançados ao chão.

Catar sentimentos tem sentido duplo. Isto não significa que seja contraditório ou que um significado exclua o outro. Falo da confusão com relação ao que se sente e também da busca por preencher o vazio, o não-sentir. Pode-se pensar que a sensação de vazio decorre, muito provavelmente, da não compreensão do que se sente. Esta falta de sentido, de explicação pode levar um indivíduo a ver-se vazio. Esta frieza sentimental poderia ser corretamente explicitada como confusão sentimental.

É neste emaranhado de sensações que se faz necessário pensar um pouco sobre o que realmente se passa consigo mesmo. Esta reflexão é a forma de catar sentimentos, não como faxineiros do excesso dos outros, mas como mineradores que lapidam o interior em busca de algo valoroso. Neste processo, há quem se sinta vítima de sua própria intensidade na busca por sentir. A força pode causar desmoronamentos e aquele que usar dinamite para conseguir perfurar rochas duras correrá o risco de destruir a si mesmo.

Queremos sentir, pois isto nos dá a sensação de estarmos vivos. Queremos inclusive sentir qualquer coisa, porque até mesmo as decepções são trampolins para a realização de coisas novas. Não é trivial essa dúvida presente em grande parte da mente e corações das pessoas ao nosso redor. Vamos catar sentimentos e se porventura encontrarmos uma jazida poderemos compartilhá-la com aquelas pessoas que tem tido dificuldade nesta busca.

escrito para o blog Catando Ideias

Pessimismo

A percepção da realidade pode sempre piorar. A oscilação de como percebemos a realidade em termos valorativos é pequena. Não são muitos os picos, os altos e baixos. Toda a percepção da realidade paira sobre uma mesmice irritante, enfadonha e interminável.

As grandes elevações no processo valorativo de julgamento pessoal são raras. Duram pouco, também. Assim, neste marasmo existencial, todo ser que se percebe lutando contra a média implora para que algo aconteça, mesmo com durabilidade ínfima.

Dentre os que buscam alterações no modo de perceber o mundo, há os pessimistas. Os que esperam, procuram, lutam e torcem para que o pico de emoção seja para baixo. Buscam a desgraça, o desamor e o desalento. Afinal, é muito mais fácil perceber uma realidade piorada do que vê-la positivamente. São raros os nascimentos de filhos, sobrinhos, netos e afilhados, as conquistas de premiações, aniversários, casamentos, enfim, os dias para se comemorar algo. Existem muitos dias idênticos, rotineiros e cansativos. Destes dias só se pode esperar mais do mesmo, mais enfado.

Por outro lado, dias comemorativos também são capazes de mudar a forma de ver o mundo. A ansiedade, a expectativa, a busca pela perfeição e todos os planejamentos podem e saem errados. Não há como valorar positivamente tais datas. Busca-se o trágico, espera-se o pior, há torcida por confusão e luta por conflitos. Notícia de terremoto é o ápice da concretização de realmente ter certeza que a realidade não é boa.

Nestas condições olhamos para a estante de livros, mas nenhum nos convida a ler. Os filmes perdem o encanto. A boa música é a vigília de um gato e o vento nas frestas da janela. Garrafas de vinho são abertas, papéis são rabiscados, fotografias são revisitadas. Quando a percepção da realidade piora, ficamos criativos e pensativos, mas não como forma de melhorar a situação. Criar e pensar não ameniza a tristeza. Pensa-se e cria-se sobre a própria realidade mal vivida. O desejo é afirmá-la. Pensa-se sobre a condição pessimista da vida, cria-se como uma ode à péssima vida.

No fim, tudo é um grande marasmo. A realidade é feita de ondas curtas. Criamos movimento nos jogando ao mar. Somos quase todos pessimistas.

escrito para o blog Catando Ideias

Não será tudo um sonho?

É bem verdade que filmes filosóficos são chatos. Legal mesmo é assistir Homem-Aranha, Star Wars e Shrek. Apesar disto, tem algo no filme Waking Life (2001), do diretor Richard Linklater, que é muito bom.

Pra quem ainda não assistiu, o filme Waking Life foi filmado e depois todas as cenas receberam uma filtragem de animação, transformando as cenas quase que em animação em flash. O resultado obtido não é um desenho super bem feito. É torto, vertiginoso, onírico.
O filme contém diversos diálogos e monólogos sobre a questão da existência, da liberdade, de Deus, da condição humana, da realidade. Porém, algumas falas se destacaram.

Há uma grande defesa do existencialismo francês do século XX. A ideia de que cada indivíduo constrói sua própria essência na existência é a defesa da liberdade e da responsabilidade. Os indivíduos são livres e não podem usar desculpas para justificar suas escolhas. É o que falta nas filosofias pós-modernas que se afastaram um pouco desse eu subjetivo capaz de escolher.

É interessante como temos desculpas para tudo. Nossas atitudes estão sempre condicionadas às atitudes dos outros. Culpamos nossa infância, nossa criação, nossos traumas, nossas vivências, Deus, o Diabo, os espíritos, o destino. Há sempre uma desculpa para que possamos dizer: “Eu não sou o único culpado por agir da forma como agi”. Neste ponto a psicologia ajuda todo mundo com as desculpas. É sempre culpa de uma alteração do humor, do inconsciente etc. Sempre é necessário o retorno ao passado para encontrar uma justificativa para ser o que se é hoje. Mas o que se é hoje senão a somatória das escolhas feitas? Mais do que nunca é o momento de dizer aos outros que o importante é o que se faz com o que a vida fez de você, para lembrar o que disse Sartre.

Neste filme, no qual o protagonista se perde entre realidade e sonho, é muito interessante falar sobre a questão do sonho. No trailer acima há a frase “Você é um sonhador?… Não tenho visto muitos ultimamente”.

É fantástico pensar nessa ausência de sonhadores. Quem são os sonhadores? Aqueles românticos, utópicos ou loucos? Obviamente que não. Aqueles que sonham são aqueles capazes de criar. Se é possível um sonho lúcido, sonhar e saber que se está sonhando, também é possível estar acordado e perceber-se acordado. O grande problema é que estamos acordados, mas ainda não despertamos.

O despertar, a Vida Desperta, está relacionado com aquele sujeito do existencialismo. O sujeito que é dono de si, que constrói a si mesmo. É um sonhador, pois diante dele está aberta uma ampla gama de opções. Escolhe, acerta, erra, se inventa.

escrito para o blog Catando Ideias (R.I.P.)

Educação e liberdade: apontamentos para uma prática pedagógica não coercitiva

Introdução

No debate sobre temas referentes à liberdade, a perspectiva abordada pela tradição liberal é ver a liberdade como liberdade negativa. Neste ponto de vista a liberdade é um conceito formal, sendo resumido à máxima “liberdade é ausência de coação”. Para uma discussão política puramente teórica é importante que o termo esteja bem definido, porém há outros pontos que podem enriquecer o debate acerca da liberdade.

O que a tradição — não apenas liberal, mas filosófica — negou durante muito tempo foi a presença do corpo. A liberdade pode ser conceituada, mas a condição de estar livre é sentida no corpo. Uma algema retirada do pulso não é simplesmente a ausência da coação para com a mobilidade, há uma experimentação física. O metal gelado é retirado da pele, o sangue passa a circular melhor e há o regozijo da troca da condição de preso para a condição de livre. Todo regozijo é sentido no corpo, há alteração da frequência cardíaca, no ritmo da respiração e diversas outras mudanças físicas e hormonais que vão do suor à tremedeira.

Com isto, não intento dizer que a liberdade resume-se às alterações físicas que proporciona. Contudo, a coação para com o indivíduo não pode ser resumida como uma coação apenas formal, pois a coação é também uma coação para com o corpo. É intuito abordar a liberdade num contexto escolar-educacional levando em conta os processos de amarras físicas que a escolarização produz e multiplica.

Uma abordagem apenas política e econômica é capaz de discutir temas referentes à qualidade, à eficiência e ao direito, por exemplo. A perspectiva deste trabalho é discutir a possibilidade de um ensino não coercitivo.

É tema recorrente nos escritos deste autor a questão da obrigatoriedade. A realização política prussiana da obrigatoriedade legal do envio dos infantes, reproduzida posteriormente pelas outras nações que se consolidavam na modernidade, não é uma obrigatoriedade apenas conceitual. As consequências físicas para este tipo de decisão constitucional são a retirada do tempo de vida, o confinamento espacial, o condicionamento físico e motor, bem como todo tipo de conformismo social através do domínio psicológico. Estas formas de controle e domínio poderiam ser facilmente abolidas com a abolição do sistema educacional e das condições jurídico-criminais que obrigam os pais a enviarem seus filhos para a escola.

Entretanto, seria ingenuidade imaginar que apenas a não obrigatoriedade educacional-escolar construiria um ambiente de plena ausência de coação. Há diversos fatores que impedem a plena realização da liberdade dentro deste tema. Um primeiro problema é a constatação de que nem todos os pais possuem condições intelectuais e temporais para realizarem o ensino domiciliar (homeschooling). É preciso frisar que uma defesa da liberdade é a defesa de que os pais que desejarem aplicar esta modalidade de ensino devem estar livres para fazê-lo. Sem a obrigatoriedade de enviar filhos para uma escola, alguns pais escolheriam ensiná-los em casa, mas muitos outros pais, desejosos em educar e seus filhos e sem tempo ou condições, continuariam a enviá-los para uma escola. Por este motivo é preciso pensar não apenas num ambiente sem coação estatal, mas também numa prática pedagógica não coercitiva. É incompatível uma luta contra o poder coercitivo do estado e a manutenção de uma prática coercitiva.

Prática pedagógica livre

A primeira necessidade é discutir o modelo pedagógico desejado para a prática da liberdade, tendo em vista que as escolas não deixarão de existir mesmo com o fim da obrigatoriedade da escolarização.

Começando com a produção bibliográfica libertária há o livro Education: Free and Compulsory de Murray Rothbard. Neste paper, o fundador do moderno libertarianismo aponta que o melhor ensino é aquele realizado numa relação um para um (ROTHBARD, 1999). Significa que vê no antigo modelo de tutoria, no qual o preceptor se dedicava exclusivamente ao aprendiz, a melhor realização do processo de ensino-aprendizagem. Não é um mero detalhe o fato deste modelo ter um alto custo. É preciso um preceptor que possua fluência em diversos saberes. Seu tempo de dedicação é um bem e precisa ser justamente ressarcido, isto é, o valor pago deve ser um acordo entre ele a família de seu aprendiz. O custo elevado torna esta modalidade inviável para todos os bolsos, além de sua inviabilidade devido a falta de profissionais capacitados.

Na esfera do factível Rothbard (1999) retoma um antigo conceito. Defende um ensino de conteúdos primários, isto é, ler, escrever e contar. A criança precisa tomar posse da leitura e escrita para que possa usar tais ferramentas para conhecer a produção intelectual da humanidade. A matemática é a ferramenta necessária para desenvolver o raciocínio lógico e é o suporte para se relacionar com os números. Saber contar é saber viver no mundo, saber trocar, medir, pesar.

É certo que um conteúdo basilar permite uma abertura de horizontes e possibilidades. A discussão acerca do que ensinar é extensa. Contudo, faz-se mister comentar um pouco sobre um ponto doravante esquecido ou deixado à margem nas discussões libertárias que priorizam os aspectos políticos e econômicos, a saber, o como ensinar.

Conteúdos devem ser pensados conjuntamente com o método de ensino. Independente de ser escolar, domiciliar, tutorial, o ensino precisa ser dado de modo que não exista coação. É preciso aliar um ensino eficaz com a liberdade e aqui é preciso pensar em alguns pontos.

Referente ao ensino escolar, contexto no qual há uma estrutura hierárquica, um colegiado e discentes das mais variadas culturas, a escola tradicional impõe uma excelência e disciplina que necessita ser seguida. Neste sentido trata os alunos da mesma forma que a tradição liberal trata os cidadãos. Todos são formalmente iguais. Esta igualdade formal não leva em conta a individualidade, a pessoalidade e o fato de indivíduos possuírem estruturas mentais e psíquicas diferentes dos demais pares. Formalmente o tratamento igual pode ser uma caracteriza interessante, mas pedagogicamente é preciso levar em conta o indivíduo, sem lidar com uma sala de aula como se houvesse homogeneidade.

Se o melhor ensino é o individual, não o coletivo, como educar coletivamente sem que o ritmo e os conteúdos sejam violentos para as crianças? No pensamento pedagógico há algumas possibilidades.

Um modelo pedagógico que se preocupou, em parte, com esta problemática foi o movimento da Escola Nova. Um dos pontos levados em conta por pensadores como John Dewey, Maria Montessori e, salvo as devidas diferenças, Jean Piaget, é pensar em quem está sendo ensinado. É preciso compreender o indivíduo que está aprendendo, seus interesses, anseios e estrutura psicológica. Neste sentido, a escola precisa levar em conta o tempo de aprendizado da criança, seu interesse em aprender e suas capacidades motoras, psicológicas e intelectuais. Apesar de não serem totalmente não dirigistas, os escolanovistas pensaram elementos que permitem uma liberdade de aprendizado e, em certo grau, levam em conta o momento e interesse da própria criança. Tais princípios colaboram na elaboração de uma pedagogia não coercitiva em comparação com a pedagogia tradicional.

Muito mais centrada na ideia de não direcionar a criança está a proposta não diretiva de educação, da qual Carl Rogers é seu principal defensor. Para ele o professor deve ser um facilitador do desenvolvimento, mas este ocorre internamente na criança. A educação é centrada na criança, que deve se autorrealizar enquanto indivíduo. O centro deste modelo educacional é o self (eu). A criança precisa valorizar e buscar constituir a si mesma. Currículos e avaliações não possuem espaço, pois “toda intervenção é ameaçadora, inibidora da aprendizagem” (LUCKESI, 2011, p. 79).

De encontro aos modos de pensar acima há o pensamento progressista, que foca na construção de um indivíduo crítico perante a realidade. Este projeto libertador, na concepção freireana, é marcado por um engajamento político de transformação social. A transformação, porém, é marcada por uma visão de mundo inerentemente marxista. Neste sentido, visa influenciar não diretamente o contexto escolar, mas extraescolar, com o intuito de transformar a sociedade conjuntamente com a escola.

Uma perspectiva mais “libertária”, no sentido mais anarquista e menos libertarista, ataca a própria estrutura escolar. O ensino deve ter como base a autogestão e a autonomia. Nos termos do pensamento do educador brasileiro Tragtenberg, esta autogestão e autonomia estão relacionadas com o coletivo, no caso os alunos. Esta linha do pensamento, que também faz uma ponte com a ideia de Rogers, tem muito a acrescentar quando se pensa numa educação não coercitiva. Obviamente que numa perspectiva individualista a ideia da construção coletiva tende a encaminhar a prática para determinada heteronomia. Entretanto, o convívio com outros não é determinante para a construção do indivíduo, visto que este não é apenas fruto de interações sociais. A vivência, a experiência e as trocas favorecem o desenvolvimento da individualidade e da pessoalidade dos sujeitos. Por outro lado, numa perspectiva de gestão escolar, escolas autogeridas e cooperativas de pais para proporcionar ensino aos seus filhos são soluções inteligentes no sentido de dissolver custos e propiciar métodos pedagógicos alternativos que estejam de acordo com o ideal de ensino defendido pela associação de pais.

A abertura de possibilidades para pensar uma prática pedagógica livre está feita. Controles escolares como conteúdos, horários, uniformes, uso do espaço arquitetônico, hierarquia e métodos são e devem ser criticados. Todos eles afetam diretamente a ideia de que a criança é dona de si mesma, tratando-a como pertencente aos responsáveis por sua educação, como os pais, professores, sociedade e estado. O não cerceamento da prática escolar possibilita invenções e reinvenções. Este é o papel dos pensadores, professores, educadores e pais que desejam educar.

Certamente que num ambiente sem intervenções como a do Ministério da Educação haveria uma “concorrência” de modelos escolares. Pais observariam resultados e colocariam seus filhos em colégios que se adequassem a aquilo que buscam para seus filhos. Nesta busca por uma utilidade do ensino, pais que visam educar, no sentido amplo do termo, devem se ater aos aspectos não apenas conteudistas, mas também a uma forma de ensino que leve em conta a criança como um indivíduo único.

Homeschooling e relação entre pais e flhos

Discutimos modelos e práticas pedagógicas escolares. Precisamos discutir um pouco outro aspecto da educação, aquela que se dá no primeiro ambiente socializador, a família.

Não há ambiente mais contraditório do que a família. A relação pais-filhos é permeada por problemáticas que envolvem responsabilidades e direitos individuais. O papel e função dos pais e seus limites de atuação constituem enorme debate. A criança ainda não está totalmente constituída e por este motivo há o debate sobre até que ponto os pais devem direcionar seus filhos.

Um bom resumo sobre a questão foi apresentado por Stephan Kinsella, baseando-se nos escritos de Hoppe e Rothbard[1], ao escrever “quem é o dono do corpo de uma criança? Inicialmente, os pais o são, como um tipo de tutor temporário.” (2008).

Ao que se segue:

os pais têm mais direitos sobre a criança do que quaisquer estranhos, por causa de seu elo natural com a criança. Entretanto, quando a criança se “apropriar” de seu corpo, estabelecendo o necessário elo objetivo suficiente para estabelecer a auto-propriedade, a criança se torna um adulto, por assim dizer, e agora passa a ter uma melhor reivindicação sobre seu corpo em relação a seus pais. (Idem)

Esta abordagem nos leva a pensar que, enquanto tutores temporários, os pais não devem interferir na propriedade (autopropriedade) de seus filhos, muito menos suprimir suas liberdades tornando suas casas aprisionamentos. A criança deve ser livre para poder sair de casa e é este o argumento de Rothbard para a realização da maioridade, a condição de poder se autossustentar.

Deixando de lado a discussão legal sobre direitos positivos, amplamente discutida por Rothbard e Hoppe, os pais possuem geralmente um desejo moral em educar seus filhos. É neste ponto que é preciso pensar a prática educacional em casa como possibilitador da compreensão da liberdade.

O primeiro ponto é a agressão física. Por mais que ideologicamente pais defendam a palmada, este recurso não é efetivamente bom. Uma punição física pela não adequação a uma regra ou ordem ensina a criança que a agressão é um recurso válido socialmente para conduzir terceiros no caminho esperado. Definições de regras claras, construídas com as crianças são formas mais eficazes. É preciso levar a criança a refletir sobre suas ações para que perceba a violação da liberdade e propriedade de terceiros. Uma educação livre não é obviamente um total deixar fazer. É deixar fazer tudo aquilo que não agrida a liberdade e propriedade de terceiros.

É preciso ter cuidado para que o convívio doméstico não se torne um aprisionamento. Este aprisionamento é uma das críticas feitas aos adeptos do homeschooling. Tendo em vista as práticas pedagógicas centradas na liberdade, os pais precisam estudar e se apropriar das ideias de não dirigismo. Uma das maiores diferenças entre um ensino em casa e um ensino escolar é a possibilidade da criança aprender o que deseja no tempo que deseja. A intencionalidade da criança é o que a motivará a direcionar seus estudos para aquilo que considera de mais valia e esteja de acordo com suas aptidões naturais.

A restrição de atividades, horários e conteúdos torna-se uma reprodução do ambiente escolar tradicional. O aprisionamento corporal pode dar-se em casa, tendo resultados contrários aos desejados pelos pais.

Conclusão

Desejando-se pensar sobre educação e liberdade também é necessário desejar uma educação não coercitiva. Os controles e restrições escolares afetam diretamente o desenvolvimento intelectual, psíquico e físico. É preciso não apenas pensar uma escola sem determinantes políticos e econômicos e seus dirigismos estatais, mas pensar um ensino não coercitivo.

Retirar o estado das questões educacionais possibilita novas invenções pedagógicas da mesma forma que a retirada da coerção pedagógica leva a novas invenções individuais. A realização da plenitude do indivíduo autônomo não ocorrerá sem um ambiente propício. Assim, é preciso que os defensores de liberdades individuais e econômicas pensem sobre suas ações. Pais e professores desejosos em ensinar a liberdade possuem esta tarefa moral para com suas crianças.

Texto originalmente publicado na Revista Estudos Pela Liberdade, nº 2

Bibliografia

KINSELLA, Stephan. Como nos tornamos donos de nós mesmos.

LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da educação. 3ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2011.

ROTHBARD, Murray Newton. Education: free and compulsory. Auburn: Ludwig von Mises Institute, 1999. Original em 1972.


[1] C.F.: Hoppe. Uma teoria sobre socialismo e capitalismo. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010, e Rothbard, A ética da liberdade. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010.