O transporte público e o alto preço das passagens

Praticamente todos os grandes municípios vivem sérios problemas de transporte público. A cidade de São Paulo, em especial, tem vivido sérios problemas. Neste ano de 2011 a passagem dos ônibus atingiu o valor de R$ 3, tornando-se a mais cara do país. Estudantes, principalmente, tem se mobilizado em passeatas e manifestações contra o alto preço cobrado. Apesar das claras disparidades entre o valor cobrado, o número de usuários e a qualidade do serviço, as manifestações não apontam uma solução para o problema.

É certo que ao analisar o problema do transporte público pode-se perceber que a culpa é da gestão pública dos transportes. Entretanto, os governantes não erram apenas por tabelar o alto preço, em acordo com as empresas de transporte. Há diversas outras falhas no sistema de transportes públicos. Para evidenciá-las usarei o que conheço, enquanto morador, da cidade de São Paulo.

Primeiramente, a rede de ônibus é gerida pela SPTrans. De acordo com o site institucional do governo municipal, “as atividades operacionais são terceirizadas e executadas por empresas que foram contratadas por licitações públicas”¹. Deste modo, os ônibus pertencem a empresas privadas que concorrem entre si por intermédio de licitações. O problema das licitações está, além das possíveis fraudes para colaborar com empresas amigas, nas consequências de tal modelo. Empresas concorrem para ter um monopólio legitimado pelo governo municipal. Se não há concorrência enquanto se presta o serviço, é óbvio que a empresa vencedora não terá estímulos para a melhoria de sua frota. Porém, devido ao fato de dividirem a cidade em diversas regiões, e em cada uma dela haver mais de um empresa atuando, a prefeitura não considera que exista um monopólio. Mas, ao analisarmos de perto, podemos perceber que não há concorrência entre empresas pois a origem e o destino é sempre diferenciado, mesmo que percorram uma mesma parte do percurso.

A partir da crítica às licitações, dissemos que não há incentivo para a melhoria de um serviço, se não há concorrência deste serviço. Pensando nisto, a prefeitura arrumou uma forma de tampar o sol com uma peneira. A SPTrans, pensando na qualidade do serviço, têm como atividades “o planejamento, a programação e a fiscalização, além do incentivo ao desenvolvimento tecnológico”². Ora, se há tranquilidade para os “empresários” do transporte é preciso que algo incentive a melhoria do serviço. Isto é feito com incentivos, isto é, com subsídios da prefeitura.

A retórica da prefeitura é estranha, pois de acordo com eles a cifra que chegou a R$ 600 milhões é por causa dos estudantes, idosos e deficientes, que possuem desconto ou gratuidade na passagem³. É estranho que transportando 5 milhões e meio de passageiros por dia, as empresas ainda precisem de auxílios para suas frotas. Com a passagem a R$ 3, as empresas irão faturar juntas algo em torno de R$ 363 milhões por mês (apenas contando os dias úteis). É claro que apresentando estas cifras pode-se pensar que as manifestações estão certas em protestar contra um preço exorbitante.

Existe, entretanto, a defesa de algo diferente. Clamar pela “catraca livre”, isto é, pelo subsídio total no transporte público não é a solução. Nossos estudantes esquecem que com tudo subsidiado o transporte público ficará mais sucateado do que está. O que motiva um bom serviço ser prestado é a concorrência. Atrair clientes faz com que existam novidades e aumento de qualidade. Portanto, o que precisamos para o transporte coletivo é torná-lo realmente coletivo, isto é, é preciso que os indivíduos que formam a coletividade tomem para si a responsabilidade pelo transporte. Isto pode se dar da seguinte forma:

1 – Fim do monopólio: Com a ausência de licitações, toda empresa desejosa em prestar um serviço de transporte poderá planejar e decidir as suas rotas. A livre entrada no mercado de transportes aumentará a concorrência no setor, trazendo mais opções para os passageiros.

2 – Desregulamentação: É preciso que o governo não interfira no setor de transportes. Significa que cada empresa pode fixar o valor que desejar em suas tarifas. A liberdade na prestação do serviço trará novos modelos de veículos. Haverá maior variedade de preços e serviços.

3 – Carona: Há pouco tempo uma política propôs a “carona solidária”, porém não há maior incentivo para a carona do que a liberdade de qualquer um que possuir um veículo poder cobrar para transportar pessoas a determinados destinos. É a consequência da desregulamentação do setor de transportes.

Com uma sociedade na qual não há regulamentação de tarifas, itinerários e veículos, os únicos que iriam perder algo seriam os péssimos empreendedores e os políticos que trocam favores. Péssimas escolhas levariam empresas ruins à falência. Sobreviveria apenas quem pudesse prestar um bom serviço. Os estudantes que tanto reclamam do valor cobrado teriam um transporte de qualidade e com um preço menor. As possibilidades que surgiriam com a ausência de regras são muitas como: sistemas de cobrança de passagens debitados em conta corrente, valor da viagem de acordo com a distância percorrida ou até mesmo sorteio de transporte gratuito em promoções. A retirada do governo do setor de transporte público é o maior benefício público que se pode ter.

Antes de terminar, é preciso antecipar uma pergunta sobre o tema:

1 – Tais soluções não iriam piorar o trânsito?

R: Não necessariamente. Talvez houvesse aumento no início da desregulamentação. Entretanto, com empresas concorrendo, os preços tendem a baixar. Preços mais baixos e veículos com maior qualidade e conforto tendem a incentivar o uso de tais transportes.

Notas:
1 – Disponível em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/transportes/institucional/sptrans/index.php?p=3513
2 – Idem.
3 – Número de acordo com o publicado no Jornal da Tarde em 29 de novembro de 2010. Disponível em: http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/kassab-da-mais-de-60-mi-em-subsidios/

O fechamento do Cine Belas Artes

Publicado originalmente em: http://mises.org.br/Article.aspx?id=874

03347857000.jpgHá algum tempo, fiquei muito triste com o fechamento de  uma “casa noturna” de São Paulo. O local, chamado Geni, funcionava numa tradicional rua da região central da cidade e num casarão antigo. A grandeza do imóvel constituía, para mim, o diferencial entre outras casas noturnas. Diversos cômodos foram ambientados diferentemente, o que tornava a ida ao local sempre uma experiência nova. Pela localidade e proposta do ambiente, sempre considerei o preço dos alimentos e bebidas aceitável.

Além do fechamento do local no qual encontrei amigos, fiz amigos, dei risadas e tive boas conversas, demoliram o casarão. Muitas pessoas ficaram indignadas na época. A demolição seria um ultraje para com a história da cidade. Alguns defenderam abaixo-assinados e outros até mesmo pensaram em tombar o imóvel. Nada impediu que a casa viesse abaixo.

Lembro de, naquela época, ter dito que deveria ter frequentado mais o Geni. Se eu tivesse ido mais vezes, convidado amigos e divulgado o local que me agradava, entraria receita para o empreendimento e possivelmente a casa ainda funcionasse.

Após estes fatos acima narrados, me deparo com uma situação muito parecida com a vivida tempos atrás. O Cine Belas Artes vai fechar. Os paulistas estão horrorizados. O cinema era tradicional. Em funcionamento desde 1943, trouxe lazer e cultura em seus 68 anos de funcionamento. O fechamento do local ocorre pela falta de patrocínio. O dono do imóvel reivindicou o espaço e irá abrir uma loja no lugar.

Muitas pessoas estão se mobilizando para executarem flashmobs e protestos contra a atitude irresponsável de fechar o cinema. Há quem defenda o tombamento do local, pois ele pertence aos paulistas. Dessa forma o cinema será salvo e ainda entrará para o círculo cultural da cidade.

É engraçado ver mais de 22 mil pessoas engajadas na “causa” pelo não fechamento do Belas Artes. O movimento é lúcido até certo ponto. Seu engajamento é para que “sensibilize o proprietário do imóvel a abrir mão de maiores lucros com a possível abertura de uma loja no local, renovando o contrato de locação que tem com os donos do Belas Artes”. Não há nenhum problema com uma manifestação. Diversas pessoas panfletam contra determinadas empresas para que estas venham a mudar suas decisões.

Uma sociedade livre está pautada na liberdade de considerar o fechamento do cinema um absurdo. Porém, a reivindicação perde total sentido quando o uso de coerção é clamado para que seja feito aquilo que se considera o correto. Posso ser contra o cinema fechar, mas não posso impedi-lo por meios que não sejam a persuasão. É neste ponto que o movimento torna-se nefasto. Declara que vai “entrar com requerimento junto aos órgãos competentes (CONDEPHAAT, CONDESP, IPHAN) para tombar o uso do imóvel em questão, assegurando-se que não seja desenvolvida outra atividade no imóvel que não a de cinema”.

É bem interessante a mentalidade de algumas pessoas. O cinema estava lá durante 68 anos. Muitos, assim como eu, frequentaram o local e gostavam das sessões de madrugada e dos filmes que ficam em cartaz durante longo período. Entretanto, outros lidam com o local apenas como um troféu. É importante que ele esteja lá, mesmo que eu nunca precise ir lá vê-lo. A mesma mentalidade se aplica aos museus da cidade, pouco frequentados pelos moradores locais. Os paulistas adoram quando são considerados a capital cultural e gastronômica, mas não degustam nem cultura e nem visitam as variadas cozinhas.

No fundo, querem ter um antigo cinema para se vangloriarem. Mas os cidadãos não são donos do cinema. Precisam tomar, isto é, roubar a propriedade de seu dono para que o cinema seja do povo. Cada um terá o prazer em dizer: “Eu tenho um cinema há 68 anos”. Não irão precisar ver filmes, é mais fácil baixar pela internet ou adquirir uma cópia não original.

Em suma, é mais fácil tombar um imóvel bem localizado do que ter de sair de casa para financiar o empreendimento admirado. Se gostavam tanto do cinema, tratem de a partir deste ano frequentar mais os cinemas tradicionais. Convidem seus amigos, façam campanha, mas não tentem manter um empreendimento à força apenas para satisfazer seus egos.