Por que relacionamentos são complicados?

Todo bate-papo de solteiros uma hora entrará no polêmico assuntos dos relacionamentos. No último mês houve mais lenha ao tema com os artigos sobre “mulheres independentes” e “mulheres chatas”. O grande erro do debate – e não dos artigos – foi focar numa antiga e desnecessária guerra dos sexos.

Além deste foco numa suposta guerra dos sexos, o assunto sobre relacionamentos sempre recai sobre a qualidade das pessoas e sobre como o nosso momento histórico é marcado por relacionamentos frágeis e descartáveis.

Gostaria de falar sobre mais alguns pontos, que considero importantes ao debate.

1. Guerra dos sexos

Em primeiro lugar, relacionamento não é guerra. Por que relacionamentos são complicados? Porque você tem encarado seus relacionamentos como disputas. Relacionamento não é um jogo no qual há vencedor e perdedor (pelo menos não deveria ser). O exemplo mais comum disto é comparar o relacionamento com esportes. Um casal não está numa partida de tênis. O casal está num jogo de frescobol. Ninguém vence com o erro do outro, mas o erro do outro é contrabalançeado com o esforço em manter a bola em jogo, apesar de um passe fraco ou forte demais.

Homens e mulheres são diferentes. Se você gosta do outro, precisa entender um pouco de uma natureza que não é a sua. Precisa entender também que dizer frases como “todo homem é isto ou aquilo” e “toda mulher deseja isto ou aquilo” são de um coletivismo imbecil. Há, obviamente, muito em comum entre todos os homens, mas cada um deles é um ser dotado de história e estrutura psicológica individual. Ao final, a única guerra que existirá será entre você e seus preconceitos.

2. Técnicas de conquista

Relacionamentos são complicados porque você tem caído em técnicas de conquista. Peço desculpas ao galanteadores de plantão, mas vou dizer algumas verdades.

Para as Mulheres:

Homens costumam utilizar uma técnica para atrair a sua atenção. Eles te fazem um elogio seguido de uma reprovação. Elogiam o seu cabelo e falam mal da sua roupa. Elogiam a sua aparência e criticam a sua bebida. (Os exemplos são infinitos). Ao fazerem isto, os homens despertam em você uma raiva. “Como assim ele me elogia e me critica ao mesmo tempo?”. “Quem ele acha que é pra falar isso pra mim?”. Se você fizer uma dessas perguntas irá automaticamente atrás deste homem, pois quer limpar a sua imagem. Que melhor forma de limpar a imagem do que se mostrar uma pessoa cheia de qualidades e fazê-lo se interessar por você? A mulher pensa que conquistou, mas foi exatamente o oposto que ocorreu.

“Mas e o cara que eu conheci acidentalmente numa fila ou no mercado que não me criticou?”. Preste atenção em como conheceu o homem. Psicologicamente estamos mais propensos a fazer um favor a alguém por quem já fizemos um favor. Neste sentido, os homens adoram pedir dicas sobre o que comprar. Ao ajudar o homem com a sua “pergunta” você se torna mais fácil a cair na lábia dele. É o velho truque de pedir o isqueiro emprestado. Funciona. Portanto, o carinha conhecido acidentalmente pode não ser o homem que apareceu na sua vida, mas apenas alguém pouco comprometido com relacionamentos sérios.

Para os Homens:

Não é muito difícil conquistar um homem quando o desejo é apenas para uma noite. Se for este o interesse, a mulher irá usar obviamente o fator roupa. Se o seu interesse for em algo a mais, preste atenção se você não está caindo no truque do visual.

A mulher que estava te olhando e desviou o olhar quando você a olhou não necessariamente é tímida. Ela faz isto exatamente com o intuito de que você vá até ela e ache que foi você que a conquistou.

Além disto, as mulheres usam o poder único de conquistar com o toque. Um beijo e um abraço mais prolongado, um toque sutil no braço, o beliscão etc. Sem que você perceba estará atraído.

Muitas vezes relacionamentos se iniciam por causa da investida de uma dessas técnicas da arte de sedução. Não vai demorar muito para que alguém perceba que a atração não vem de dentro. O final da história a maioria conhece.

3. Amor

Relacionamentos são complicados pois se entende muito pouco o que seja o amor.

Amar traz a idéia de relação. É uma relação entre o sujeito que ama e o objeto amado. Assim, o amor é o que mantém esta relação existente entre um sujeito e um objeto. Tal relação, entretanto, não significa que o amor é uma mera relação vetorial unidimensional de alguém para algo. Amor não é um sentimento ou uma abstração. Amor é o esforço deliberado para atingir a finalidade de manter o vínculo entre sujeito-objeto. Constitui-se num conjunto de ações racionais que permitem que o desejo pelo objeto possa manter-se enquanto desejo, apesar das circunstâncias.

As pessoas dizem muito facilmente o “eu te amo”, mas esquecem que amar é o engajar-se totalmente para manter o vínculo. É por este motivo que relacionamentos começam e terminam tão rapidamente. Deseja-se o outro. Possui-se o outro. Mas não há esforço em manter o desejo. Um desejo consumado torna-se rapidamente um desejo por outro objeto.

As pessoas querem se relacionar, mas não querem a responsabilidade de amar realmente. Se iludem com um amor de mentira e passam a imaginar que não há mais amor.

Portanto, saiba o que é amar, não caia na conversa alheia e fuja dos relacionamentos conflituosos. Entenda que o amor começa com o amor próprio, mas precisa de uma boa pitada de amor ao outro. E o mais importante: não peça suco natural e nem use crocs.

Kevin Carson não representa o libertarianismo

Há um ímpeto comum entre os seres humanos. Atinge do inculto ao culto, do esquerdista ao direitista, do ateu ao fundamentalista religioso e dos mancebos aos anciãos. Este ímpeto é o de concluir que uma característica das partes deva se aplicar ao todo. Na vontade de refutar, surgida da indignacão com um texto de Kevin Carson e com um radicalismo ideológico de internet, Luciano Ayan cedeu e abraçou o erro categorial de composicão. Ayan desejou mostrar como o libertarianismo de Kevin Carson é utopista ao dizer que sem estados não haveria guerras.

Primeiramente, Ayan acerta ao colocar Carson como um libertário de esquerda. Entretanto, é preciso lembrar que “o libertarianismo de esquerda não é uma posição política homogênea. Antes, designa diferentes abordagens de questões políticas e sociais num contexto teórico nos quais diferentes teorias relacionam-se. Deste modo, falar em libertários de esquerda pode-se referir aos seguintes grupos teóricos: (1) esquerda libertária, (2) georgismo (geoísmo), (3) escola Steiner–Vallentyne, (4) agorismo, (5) left-libertarianism (libertarianismo de esquerda de livre mercado).”1

Antes, porém, que atribuam ao libertarianismo as características de uma parte, repito que a teoria libertária é um todo complexo que inclui: “o liberalismo neoclássico de Friedrich Hayek e Milton Friedman, o anarcocapitalismo de Murray Rothbard e David Friedman (são anarcocapitalismo diferentes), o objetivismo de Ayn Rand, o geolibertarianismo (georgismo) de Fred Foldvary, o libertarianismo de esquerda de Hillel Steiner e Peter Vallentyne, o agorismo de Samuel Konkin III, o minarquismo de Robert Nozick, o neo-mutualismo de Kevin Carson, além de diversas outras posições à esquerda de anarquistas e libertários clássicos e contemporâneos e à direita como a ética argumentativa de Hans-Hermann Hoppe.”2

Dito isto, podemos começar a falar sobre a posição de Kevin Carson a respeito dos conflitos entre Israel e Hamas. Em Gaza: O feitiço de Israel se vira contra o feiticeiro, Carson busca analisar o atual conflito resgatando a sua origem. A partir de duas obras sobre a história do conflito, o autor chega a uma conclusão parecida com muitas análises feitas anos atrás acerca do conflito Estados Unidos – Osama Bin Laden. Foram os EUA que financiaram Bin Laden contra um inimigo maior, a URSS. Portanto, os ataques de 11 de setembro, foi o feitiço (o treinamento e financiamento de Osama) contra o feiticeiro. Do mesmo modo, Israel apoiou o Hamas contra outros grupos islâmicos. O apoio e financiamento do passado se voltam a Israel hoje. É óbvio que o Hamas tem culpa ao bombardear Israel, não vou negar isto e nem dizer que uma ética se baseia em consequências indesejadas. O ponto que merece atenção é que este tipo de apoio externo, financiamento e treinamento, se mostrou extremamente fracassado. Os estados ao tentarem promover a paz geraram guerras. Significa que confiar em estados para que tenham uma boa relação externa é ingenuidade.

O ponto de Carson é que a tentativa de governos em atuar no exterior malogrou. A história cobrou um alto preço por conta da tomada de posição em conflitos externos. É por conta disto que conclui duas coisas: (1) não se deve confiar na narrativa oficial sobre as ameaças externas e (2) “há uma boa chance de que todos os problemas no exterior sejam repercussões das ações do próprio estado”.

Dizer que há uma boa chance de que todos os problemas externos sejam causados pelo estado não é dizer que um mundo sem estado não possui guerras. Isto seria uma negação do antecedente, o que evidentemente Carson não fez.

Mas e se não houvesse estados na região como será que as coisas funcionariam? No texto Israel e Palestina: uma guerra estatal, Markus Bergström mostra que muito além de se perguntar quem tem legitimidade de controlar os territórios reivindicados o problema começa justamente pela existência de estados conclamando para si territórios.

As soluções existentes, estados de Israel e Palestina coexistindo e acordados sobre os territórios ou a fusão num só estado, não resolveriam os conflitos. Uma terceira posição seria a abolição de ambos os estados. Não haveria mais o estado israelense e um dos fatores mais agregadores e pacificadores, o comércio, conseguiria evitar conflitos grandes e custosos. (não vou repetir tudo o que Bergström colocou em seu artigo, o bom leitor o lerá.)

Antes de terminar, dizer que sem estados não haveria as guerras estatais não é afirmar que a natureza humana é boa. É a maldade humana nas mãos de líderes com incentivos que geram grandes guerras. O ser humano entra em conflito com outros o tempo todo. Numa sociedade sem estado, a segurança funcionaria bem diferente e um ótimo começo é ler o livro Teoria do Caos do Bob Murphy.

Em tempo, o erro de Kevin Carson não é apontar que os conflitos sejam de responsabilidade das autoridades israelenses e palestinas. Sua teoria econômica e seus pressupostos marxistas são problemas bem mais graves. Ainda bem que ele não representa o libertarianismo.

 

Notas:

1Filipe Celeti. Anarcocomunismo, socialismo libertário e libertarianismo de esquerda: conceitos e diferenças. Disponível em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1653

2Filipe Celeti. Uma defesa do desfusionismo, ou uma aula para Filipe Altamir. Disponível em: http://www.institutoliberal.org.br/blog/uma-defesa-desfusionismo-ou-uma-aula-para-filipe-altamir/

A sabedoria na greve do transporte coletivo

Quando lemos sobre as greves nos deparamos sempre com a mesma temática. Disserta-se sobre política, trânsito, política, direito, política, ética, política, urbanismo, política, transporte e política. Mas pouco é percebido acerca do modo como os homens vivem. Perde-se oportunidades valiosas em entender um pouco mais sobre como pensamos e agimos. Há um lado bom na greve. Poucos conseguem ver. Para entender como ela proporciona o exercício do cérebro, temos de entender o cotidiano numa grande cidade.

A rotina numa grande cidade é marcada pelo compromisso e pelo comprometimento. Há horário para tudo. Existe uma agenda a ser concretizada. Os estudos, o trabalho, o almoço, a academia, o lazer e as compras são todos adequados à nossa maneira de estruturar nossa vida ordinária. Numa cidade complexa há horários diversos. São infinitos os arranjos.

Entretanto, os arranjos pessoais dependem de condições externas aos esquemas e anseios internos de cada indivíduo. É por este motivo que uma greve, como a do transporte coletivo, torna a vida de praticamente a totalidade dos indivíduos um caos.

A greve, porém, tem um lado bom. A greve nos força a pensar. A greve nos retira do cotidiano. Do estancamento da rotina. Que beleza maior há do que a possibilidade de inventar o novo? De remodelar-se?

As reclamações sobre o trânsito, sobre ter de mudar o caminho para onde quer que se esteja indo, estão permeadas por uma vontade de não mudança. Deseja-se que o universo seja sempre o mesmo, que tudo esteja sempre no mesmo lugar. A realidade não é assim. Quando se contempla o mundo ao redor percebe-se que a todo instante faz-se necessário alterar os planos.

O homem tem a necessidade de organizar o mundo, que por sua vez é caótico. Não entender esta caoticidade faz com que o indivíduo caia em alguns extremos. Em primeiro lugar não há de se relativizar tudo por conta da dinâmica existente. Em segundo lugar, a insistência no controle leva necessariamente ao sentimento de impotência em poder controlar tudo e todos. É este desejo de universo controlado que mais se sobressai quando vemos o horror estampado na face daqueles que ficam desorientados diante de uma situação nova.

Quando uma pessoa amada morre, termina o amor, não se passa na entrevista, na prova ou no exame, o que fazer? É preciso recalcular a rota. Às vezes voltar e seguir outro rumo. Outras vezes basta fazer uma conversão à direita e seguir para o mesmo alvo por outro caminho. Quando uma ponte cai você procura outra ponte, toma um barco, vai a nado ou simplesmente não atravessa. É o mesmo dilema da pedra no caminho, tão popular e banalizado, mas pouco compreendido em sua essência.

A greve dos transportes coletivos é sábia. Mostra o quão estamos viciados em nossos planos e em nos adequar aos planos de terceiros. Mostra ao trabalhador que ele pode não ir trabalhar quando outros fatores o impedirem. Mostra ao patrão que ele não pode contar com todos os funcionários sempre. Mostra a ambos a necessidade de conhecer rotas alternativas.

A greve nos transportes é sábia. Escancara a quem quiser ver o modo como estruturamos a nossa vida. Além disso, mostra exatamente como é a condição de viventes. Mostra que não há segurança nos planos. Evidencia que a condição humana é a de esgueirar-se em meio as tempestuosas adversidades.

Por conta disto tudo, pode-se amar a greve. Ame a greve! Ame quando a vida te forçar a se reinventar. Contemple, mas não a inércia da pacata existência que te retira a possibilidade de escolher, errar, acertar, mudar, viver.

 

 

Escrito para o blog Ad Hominem.

O melhor começo de livro

Não é inteligente julgar um livro pela capa, mas não é desonesto aquele que julga uma obra pelo primeiro parágrafo. Uma boa história começa boa. O bom texto te prende, te fascina, te estimula e te alimenta com uma sensação de necessidade de devorar cada pronome, verbo, artigo, advérbio, adjetivo, conjunção etc. Não é à toa que Platão utiliza a metáfora do começo de uma obra para falar da importância de pensar a educação. “O começo é a metade de toda obra” (VI 753e), afirma o personagem “Ateniense” em As leis.

São inúmeros os bons livros que começam bem. Lembro do Morgenstern me apresentando Arquipélago gulag, com a história deles comendo uma salamandra ancestral congelada na Sibéria. Lembro da primeira folheada no clássico Lavoura arcaica e de meu encantamento ao ler os contos sartreanos em O muro. Não poderia esquecer do mestre Machado, encantando antes mesmo das Memórias póstumas começarem, ao dedicar o livro ao verme que roeu o seu cadáver.

Apesar dos brilhantes começos, há um livro, não literário, mas acadêmico, que conseguiu o primor de dissecar e apontar o modo como a sociedade tem vivido. Publicado em 1971, Sociedade sem escolas, de Ivan Illich, transcende o debate acerca da educação. O parágrafo com o qual inicia o primeiro capítulo nos permite discutir até a exaustão, mas pretendo não te cansar, caro leitor.

Illich escreve:

Muitos estudantes, especialmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância. Alcançado isto, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade, melhores os resultados; ou, então, a graduação leva ao sucesso. O aluno é, desse modo, «escolarizado» a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é «escolarizada» a aceitar serviço em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria da vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa são definidas como sendo um pouquinho mais que o produto das instituições que dizem servir a estes fins; e sua promoção está em conceder maiores recursos para a administração de hospitais, escolas e outras instituições semelhantes. (p.16)

Ao dizer que muitos estudantes percebem o que a escola faz por eles, de forma intuitiva, Illich está dizendo que, mesmo sem saber ou entender, as pessoas percebem que na verdade a escola não serve pra nada. Após passar mais de 10 anos numa instituição de ensino, muito pouco do que ali foi dito, pensado ou debatido se relacionará com a vida. O meu medo é que a escolarização tem tido tanto êxito, que a quantidade de pessoas que percebem tem diminuído drasticamente. Os alunos formam-se institucionalizados e, quase robôs, pouco fazem ou são capazes de fazer com aquilo que foi programado e registrado em suas mentes.

O que a escola faz? Confunde processo com substância. Faz com que as pessoas confundam anos de estudo com resultados, ter se formado com sucesso. Não demora muito para o pobre perceber que comprou uma ideologia furada. Foi bombardeado com slogans que afirmavam que passar mais anos estudando lhe dá mais chance, e depois percebe que muitas vezes a conclusão de um curso não resulta na mágica entrada para o mercado de trabalho. Percebe também que seus colegas com habilidades esportivas e persistência, outros que cultuaram o próprio corpo, e aqueles que se dedicaram a fazer ruídos com letras sobre gastar dinheiro e dormir com muitas mulheres, “deram” muito mais certo do que os que estudaram com dedicação. Pode perceber também que o culto aos anos de formação impede os anos de experiência. Comprou gato por lebre, ao viver debaixo da institucionalização da educação.

Adentrando o mundo da educação, a confusão entre processo e substância leva a entender o ensino como aprendizagem. O processo do ensino não é o fruto de um ensino bem realizado. Estar presente num ambiente em que existe ensino, não resulta em aprendizagem. Entretanto, vivemos sob o mantra do discurso metodológico confundido com resultados de aprendizagem – quando esta já não foi descartada totalmente em nome do processo oco.

Confundir a obtenção de graus com educação é o que faz a nossa sociedade medir seus índices e multiplicar estatísticas sobre a população escolarizada e o tempo da escolarização. “Veja como estamos mais educados! Passamos de uma média de 5 anos para 8 anos de educação.” Todo tipo de artificio nefasto é utilizado para melhorar os dados que dizem apenas que as pessoas passam mais tempo inútil numa construção arquitetônica denominada escola. A aprendizagem e a educação estão muito distantes disto. Illich mostra ao longo de seu texto como este pensamento se perpetua para angariar mais fundos para esta instituição responsável pela “educação”.

Nesta sociedade confusa, o que mais se multiplica é a inexistência de competentes à medida em que mais pessoas tornam-se certificadas. Muitos querem ter um papel, poucos querem ser, viver e saber. A cultura do diploma é a manifestação da grave doença burocrática que visa impedir que as pessoas sejam o que desejam se não estiverem dentro de critérios puramente arbitrários.

Por último, a cegueira institucionalizada cria um mundo de palpiteiros que, dominando minimamente a língua, pensam-se capazes de dizer algo novo acerca da realidade. A aprendizagem, a educação e a competência não importam, pois o que vale é o processo.

A imaginação também é escolarizada. Lembro de Georges Didi-Huberman falando sobre a imaginação rasgada (déchirée) de nosso tempo, nos impedindo de ver, interpretar o que vemos e de ir para além do que enxergamos. Pode ser este pano de fundo estético o responsável pela aceitação de serviço em troca de valor. Não há criadores de valor no universo de repetidores de ações, incapazes de refletirem sobre o que realizam.

Para além da educação, temos a institucionalização de tudo. Não há mais saúde fora dos sistemas. Os médicos tornaram-se os sacerdotes e feiticeiros, responsáveis pela verdade e pelos encantamentos de vida e de morte. É preciso sempre ter uma instituição para cuidar daquilo que pertence ao indivíduo. Para a segurança temos a polícia, para a defesa temos o exército, para a melhoria de condições de vida temos os programas de assistência social, para a justiça temos os tribunais burocráticos, para a validação de contratos temos os cartórios. Nada escapa da institucionalização. Para viver com quem se ama, para vender um produto e para consumir plantas alucinógenas invoca-se uma instituição que será responsável por aquilo que o indivíduo poderia realizar sem autorização e sem invocar tal autorização. Mas esta é a condição da sociedade escolarizada.

O término do parágrafo de Illich não poderia ser diferente. Quando “saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa” são vistas como resultados dessas instituições que dizem ser as únicas responsáveis por tal substância, temos obviamente a demanda infinita de recursos para fazer cumprir tais resultados. É a partir deste mito que escolas, hospitais, tribunais, ONGs, ordens profissionais, sindicatos e legisladores retiram a legitimidade que inventaram para si mesmos como os verdadeiros provedores daquilo que, sem eles, as próprias pessoas poderiam conseguir.

A institucionalização da vida é total. Vivemos na época de delegar aos outros a responsabilidade que deveria nos ser própria. Uma época na qual

o medicar-se a si próprio é considerado irresponsabilidade; o aprender por si próprio é olhado com desconfiança; a organização comunitária, quando não é financiada por aqueles que estão no poder, é tida como forma de agressão ou subversão. A confiança no tratamento institucional torna suspeita toda e qualquer realização independente. [...] Em toda parte, não apenas a educação, mas a sociedade como um todo precisa ser «desescolarizada». (p.17)

Ivan Illich iniciou seu livro de maneira primorosa. Que este autor que vos escreve tenha conseguido, mutatis mutandis, algo parecido em sua estréia neste blog.

Referências:

ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985.

 

Escrito para a minha estreia no blog Ad Hominem.

Valesca Filósofa

 

Em meio a tantos debates acerca do ensino de filosofia é preciso dizer que há mais gente enganada ou enganando do que o professor que colocou um trecho da música de Valesca Popozuda em sua avaliação. Surgiram grupos de pessoas, em ambos os lados do debate, que simplesmente ignoraram pontos importantes.

O ponto inicial é dizer que o professor errou. No que errou? Errou, não em colocar a música da Valesca em sua prova, mas em fazer uma questão tão superficial. Uma pergunta na qual o aluno necessita apenas conhecer um trecho de uma música de sucesso não permite a este aluno uma reflexão crítica da realidade, que é a proposta de todo ensino de filosofia levado a sério.

As justificativas em defesa do professor se dividem em: (1) foi uma ironia e (2) houve um debate em aula anterior a respeito do tema da moral. Se a questão foi pensada para ser uma ironia, então é preciso dizer a este professor que a tentativa de ironia dele malogrou. Se a questão se justifica por conta da possibilidade de abertura de um debate, faz-se necessário dizer que toda a possibilidade de leitura consciente da música e da realidade foram eliminadas por conta da pobreza da pergunta feita.

Por outro lado, criticou-se o professor pelo fato de utilizar-se de uma música popular – considerada de gosto duvidoso por aqueles que ainda imaginam uma escala hierárquica nas artes. Ora, se a filosofia não nos permite ler uma manifestação cultural, seu local, seu sentido, seus limites e sua abrangência, então a filosofia é inútil. Além disto, se uma manifestação cultural não nos permite indagar sobre a realidade que a cerca, significa que nossas possibilidades reflexivas estão enferrujadas.

O problema de ensino não está nos materiais utilizados ou numa valorização da cultura popular sobre a cultura erudita, – embora este seja o problema fundamental da pedagogia freireana – mas na qualidade da formação de nossos professores. O planejamento de aula, o estabelecimento de metas e objetivos, a metodologia e a avaliação são algumas das competências que foram deixadas de lado para formar professores “críticos”. Numa escolarização aleijada há apenas a realização de uma prática incompleta.

Aos especialistas que milagrosamente apareceram para comentar o ocorrido, Rothbard dizia que a economia é uma ciência complicada e por este motivo é melhor que os ignorantes em economia não digam besteiras sobre ela. O mesmo pode-se dizer da pedagogia. Há muitos palpites, mas muito pouco de compreensão da dimensão educacional.

 

Arte, gosto e significado

O que é Arte? Há algum critério objetivo que defina o que é arte? Se sim, qual critério? Se não, tudo é arte? Que relação existe entre a arte e o gosto?

Essas perguntas não são nem um pouco triviais. O problema principal ocorre quando relacionamos a arte com o gosto. Se não existe um critério que defina a arte, então não há mal gosto e tudo é permitido. Se existe um critério então é possível classificar a arte como arte superior e inferior, relacionando o fazer e a fruição artísticos com o bom e o mau gosto.

Inicialmente é preciso entender que a história da arte percorre toda a história do homem, ou seja, arte é desde a arte rupestre até as instalações sem sentido que vemos nas exposições atuais. Compreende desde os sons arcaicos e cantos tribais, passando pelos compositores clássicos, como Mozart e Beethoven, até os bondes e MCs do funk. Das representações de divindades e do mundo em pedra e madeira até as esculturas abstratas feitas de lixo.

Apesar de acompanhar toda a história do homem, é na contemporaneidade que há um debate sobre o qual gostaria de escrever. A partir do século XX surgem manifestações artísticas que dificultam e confundem os apreciadores de arte a entenderem o que seja a arte. De um lado existem os que querem resgatar uma compreensão da arte como atrelada ao bom gosto e de outro lado os que defendem que tudo é arte. Discordo dos dois grupos.

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O que é liberdade?

Quando defendemos ideias e ações, precisamos procurar definir as palavras que usamos. Muitos já ouviram falar em liberalismo e libertarianismo, mas o que significa a palavra liberdade? Longe de falar de uma explicação complicada e filosófica pretendo trilhar uma explicação didática. Não é preciso falar difícil para ser profundo. A clareza é importante.

Antes, porém, de falar o que é a liberdade, vou começar pelo o que a liberdade não é. Quando falamos em liberdades, não estamos falando de habilidades, condições e capacidades. Não poder realizar alguma coisa não torna ninguém menos livre. A liberdade não é a capacidade de fazer algo. Além disto, existem diversas concepções de liberdade.

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Texto publicado em minha coluna, Descomplicando, no site Liberzone.