O melhor começo de livro

Não é inteligente julgar um livro pela capa, mas não é desonesto aquele que julga uma obra pelo primeiro parágrafo. Uma boa história começa boa. O bom texto te prende, te fascina, te estimula e te alimenta com uma sensação de necessidade de devorar cada pronome, verbo, artigo, advérbio, adjetivo, conjunção etc. Não é à toa que Platão utiliza a metáfora do começo de uma obra para falar da importância de pensar a educação. “O começo é a metade de toda obra” (VI 753e), afirma o personagem “Ateniense” em As leis.

São inúmeros os bons livros que começam bem. Lembro do Morgenstern me apresentando Arquipélago gulag, com a história deles comendo uma salamandra ancestral congelada na Sibéria. Lembro da primeira folheada no clássico Lavoura arcaica e de meu encantamento ao ler os contos sartreanos em O muro. Não poderia esquecer do mestre Machado, encantando antes mesmo das Memórias póstumas começarem, ao dedicar o livro ao verme que roeu o seu cadáver.

Apesar dos brilhantes começos, há um livro, não literário, mas acadêmico, que conseguiu o primor de dissecar e apontar o modo como a sociedade tem vivido. Publicado em 1971, Sociedade sem escolas, de Ivan Illich, transcende o debate acerca da educação. O parágrafo com o qual inicia o primeiro capítulo nos permite discutir até a exaustão, mas pretendo não te cansar, caro leitor.

Illich escreve:

Muitos estudantes, especialmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância. Alcançado isto, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade, melhores os resultados; ou, então, a graduação leva ao sucesso. O aluno é, desse modo, «escolarizado» a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é «escolarizada» a aceitar serviço em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria da vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa são definidas como sendo um pouquinho mais que o produto das instituições que dizem servir a estes fins; e sua promoção está em conceder maiores recursos para a administração de hospitais, escolas e outras instituições semelhantes. (p.16)

Ao dizer que muitos estudantes percebem o que a escola faz por eles, de forma intuitiva, Illich está dizendo que, mesmo sem saber ou entender, as pessoas percebem que na verdade a escola não serve pra nada. Após passar mais de 10 anos numa instituição de ensino, muito pouco do que ali foi dito, pensado ou debatido se relacionará com a vida. O meu medo é que a escolarização tem tido tanto êxito, que a quantidade de pessoas que percebem tem diminuído drasticamente. Os alunos formam-se institucionalizados e, quase robôs, pouco fazem ou são capazes de fazer com aquilo que foi programado e registrado em suas mentes.

O que a escola faz? Confunde processo com substância. Faz com que as pessoas confundam anos de estudo com resultados, ter se formado com sucesso. Não demora muito para o pobre perceber que comprou uma ideologia furada. Foi bombardeado com slogans que afirmavam que passar mais anos estudando lhe dá mais chance, e depois percebe que muitas vezes a conclusão de um curso não resulta na mágica entrada para o mercado de trabalho. Percebe também que seus colegas com habilidades esportivas e persistência, outros que cultuaram o próprio corpo, e aqueles que se dedicaram a fazer ruídos com letras sobre gastar dinheiro e dormir com muitas mulheres, “deram” muito mais certo do que os que estudaram com dedicação. Pode perceber também que o culto aos anos de formação impede os anos de experiência. Comprou gato por lebre, ao viver debaixo da institucionalização da educação.

Adentrando o mundo da educação, a confusão entre processo e substância leva a entender o ensino como aprendizagem. O processo do ensino não é o fruto de um ensino bem realizado. Estar presente num ambiente em que existe ensino, não resulta em aprendizagem. Entretanto, vivemos sob o mantra do discurso metodológico confundido com resultados de aprendizagem – quando esta já não foi descartada totalmente em nome do processo oco.

Confundir a obtenção de graus com educação é o que faz a nossa sociedade medir seus índices e multiplicar estatísticas sobre a população escolarizada e o tempo da escolarização. “Veja como estamos mais educados! Passamos de uma média de 5 anos para 8 anos de educação.” Todo tipo de artificio nefasto é utilizado para melhorar os dados que dizem apenas que as pessoas passam mais tempo inútil numa construção arquitetônica denominada escola. A aprendizagem e a educação estão muito distantes disto. Illich mostra ao longo de seu texto como este pensamento se perpetua para angariar mais fundos para esta instituição responsável pela “educação”.

Nesta sociedade confusa, o que mais se multiplica é a inexistência de competentes à medida em que mais pessoas tornam-se certificadas. Muitos querem ter um papel, poucos querem ser, viver e saber. A cultura do diploma é a manifestação da grave doença burocrática que visa impedir que as pessoas sejam o que desejam se não estiverem dentro de critérios puramente arbitrários.

Por último, a cegueira institucionalizada cria um mundo de palpiteiros que, dominando minimamente a língua, pensam-se capazes de dizer algo novo acerca da realidade. A aprendizagem, a educação e a competência não importam, pois o que vale é o processo.

A imaginação também é escolarizada. Lembro de Georges Didi-Huberman falando sobre a imaginação rasgada (déchirée) de nosso tempo, nos impedindo de ver, interpretar o que vemos e de ir para além do que enxergamos. Pode ser este pano de fundo estético o responsável pela aceitação de serviço em troca de valor. Não há criadores de valor no universo de repetidores de ações, incapazes de refletirem sobre o que realizam.

Para além da educação, temos a institucionalização de tudo. Não há mais saúde fora dos sistemas. Os médicos tornaram-se os sacerdotes e feiticeiros, responsáveis pela verdade e pelos encantamentos de vida e de morte. É preciso sempre ter uma instituição para cuidar daquilo que pertence ao indivíduo. Para a segurança temos a polícia, para a defesa temos o exército, para a melhoria de condições de vida temos os programas de assistência social, para a justiça temos os tribunais burocráticos, para a validação de contratos temos os cartórios. Nada escapa da institucionalização. Para viver com quem se ama, para vender um produto e para consumir plantas alucinógenas invoca-se uma instituição que será responsável por aquilo que o indivíduo poderia realizar sem autorização e sem invocar tal autorização. Mas esta é a condição da sociedade escolarizada.

O término do parágrafo de Illich não poderia ser diferente. Quando “saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa” são vistas como resultados dessas instituições que dizem ser as únicas responsáveis por tal substância, temos obviamente a demanda infinita de recursos para fazer cumprir tais resultados. É a partir deste mito que escolas, hospitais, tribunais, ONGs, ordens profissionais, sindicatos e legisladores retiram a legitimidade que inventaram para si mesmos como os verdadeiros provedores daquilo que, sem eles, as próprias pessoas poderiam conseguir.

A institucionalização da vida é total. Vivemos na época de delegar aos outros a responsabilidade que deveria nos ser própria. Uma época na qual

o medicar-se a si próprio é considerado irresponsabilidade; o aprender por si próprio é olhado com desconfiança; a organização comunitária, quando não é financiada por aqueles que estão no poder, é tida como forma de agressão ou subversão. A confiança no tratamento institucional torna suspeita toda e qualquer realização independente. [...] Em toda parte, não apenas a educação, mas a sociedade como um todo precisa ser «desescolarizada». (p.17)

Ivan Illich iniciou seu livro de maneira primorosa. Que este autor que vos escreve tenha conseguido, mutatis mutandis, algo parecido em sua estréia neste blog.

Referências:

ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985.

 

Escrito para a minha estreia no blog Ad Hominem.

Valesca Filósofa

 

Em meio a tantos debates acerca do ensino de filosofia é preciso dizer que há mais gente enganada ou enganando do que o professor que colocou um trecho da música de Valesca Popozuda em sua avaliação. Surgiram grupos de pessoas, em ambos os lados do debate, que simplesmente ignoraram pontos importantes.

O ponto inicial é dizer que o professor errou. No que errou? Errou, não em colocar a música da Valesca em sua prova, mas em fazer uma questão tão superficial. Uma pergunta na qual o aluno necessita apenas conhecer um trecho de uma música de sucesso não permite a este aluno uma reflexão crítica da realidade, que é a proposta de todo ensino de filosofia levado a sério.

As justificativas em defesa do professor se dividem em: (1) foi uma ironia e (2) houve um debate em aula anterior a respeito do tema da moral. Se a questão foi pensada para ser uma ironia, então é preciso dizer a este professor que a tentativa de ironia dele malogrou. Se a questão se justifica por conta da possibilidade de abertura de um debate, faz-se necessário dizer que toda a possibilidade de leitura consciente da música e da realidade foram eliminadas por conta da pobreza da pergunta feita.

Por outro lado, criticou-se o professor pelo fato de utilizar-se de uma música popular – considerada de gosto duvidoso por aqueles que ainda imaginam uma escala hierárquica nas artes. Ora, se a filosofia não nos permite ler uma manifestação cultural, seu local, seu sentido, seus limites e sua abrangência, então a filosofia é inútil. Além disto, se uma manifestação cultural não nos permite indagar sobre a realidade que a cerca, significa que nossas possibilidades reflexivas estão enferrujadas.

O problema de ensino não está nos materiais utilizados ou numa valorização da cultura popular sobre a cultura erudita, – embora este seja o problema fundamental da pedagogia freireana – mas na qualidade da formação de nossos professores. O planejamento de aula, o estabelecimento de metas e objetivos, a metodologia e a avaliação são algumas das competências que foram deixadas de lado para formar professores “críticos”. Numa escolarização aleijada há apenas a realização de uma prática incompleta.

Aos especialistas que milagrosamente apareceram para comentar o ocorrido, Rothbard dizia que a economia é uma ciência complicada e por este motivo é melhor que os ignorantes em economia não digam besteiras sobre ela. O mesmo pode-se dizer da pedagogia. Há muitos palpites, mas muito pouco de compreensão da dimensão educacional.

 

Arte, gosto e significado

O que é Arte? Há algum critério objetivo que defina o que é arte? Se sim, qual critério? Se não, tudo é arte? Que relação existe entre a arte e o gosto?

Essas perguntas não são nem um pouco triviais. O problema principal ocorre quando relacionamos a arte com o gosto. Se não existe um critério que defina a arte, então não há mal gosto e tudo é permitido. Se existe um critério então é possível classificar a arte como arte superior e inferior, relacionando o fazer e a fruição artísticos com o bom e o mau gosto.

Inicialmente é preciso entender que a história da arte percorre toda a história do homem, ou seja, arte é desde a arte rupestre até as instalações sem sentido que vemos nas exposições atuais. Compreende desde os sons arcaicos e cantos tribais, passando pelos compositores clássicos, como Mozart e Beethoven, até os bondes e MCs do funk. Das representações de divindades e do mundo em pedra e madeira até as esculturas abstratas feitas de lixo.

Apesar de acompanhar toda a história do homem, é na contemporaneidade que há um debate sobre o qual gostaria de escrever. A partir do século XX surgem manifestações artísticas que dificultam e confundem os apreciadores de arte a entenderem o que seja a arte. De um lado existem os que querem resgatar uma compreensão da arte como atrelada ao bom gosto e de outro lado os que defendem que tudo é arte. Discordo dos dois grupos.

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O que é liberdade?

Quando defendemos ideias e ações, precisamos procurar definir as palavras que usamos. Muitos já ouviram falar em liberalismo e libertarianismo, mas o que significa a palavra liberdade? Longe de falar de uma explicação complicada e filosófica pretendo trilhar uma explicação didática. Não é preciso falar difícil para ser profundo. A clareza é importante.

Antes, porém, de falar o que é a liberdade, vou começar pelo o que a liberdade não é. Quando falamos em liberdades, não estamos falando de habilidades, condições e capacidades. Não poder realizar alguma coisa não torna ninguém menos livre. A liberdade não é a capacidade de fazer algo. Além disto, existem diversas concepções de liberdade.

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Texto publicado em minha coluna, Descomplicando, no site Liberzone.

Máfia, desvio e corrupção em São Paulo

Explodiu mais um escândalo envolvendo funcionários públicos e os favorecimentos a empresas. Desta vez funcionários da prefeitura de São Paulo favoreceram construtoras ao cobrarem o ISS (Imposto Sobre Serviços) abaixo do valor estipulado. Alem disto, o grupo também adulterava o cadastro do IPTU para que os imóveis pudessem pagar um valor menor à prefeitura.

Num primeiro momento, pode-se olhar para os auditores como herois genuínos! Não fosse a atuação deles, capaz que bem menos empreendimentos imobiliários fossem realizados ou tivessem condições de permanecerem viáveis. O funcionário corrupto faz um bem à sociedade quando permite que as regras e as leis não sejam aplicadas totalmente, resultando em mais empreendimentos e maior geração de riqueza.

Entretanto, o louvor aos corruptos termina rapidamente. Decerto que são o resultado da lógica governamental que cria dificuldades para vender facilidades. Ao se corromperem facilitam a vida dos paulistanos que terão mais empregos e imóveis. Mas, a facilidade não está disponível para todos. Governos são experts em favorecer empresas com as quais se relacionam. Os auditores fizeram o mesmo.

Por mais que ajudar indivíduos e empresas a pagar menos impostos, ou seja, ajudá-los a não serem roubados, seja algo bom, poucos são os que se favorecem com esta manobra. A facilidade deu vantagem a um grupo de indivíduos, enquanto muitos outros eram penalizados com as auditorias feitas com toda a força da lei. A concorrência desleal é fruto deste favorecimento.

Politicamente, a atual gestão da cidade usará este episódio para erguer-se como defensora de transparência e eficiência. A corrupção divulgada retomará o debate sobre o aumento do IPTU e sobre como a cidade não consegue cumprir seus compromissos financeiros por causa de calotes como o do ISS e do IPTU.

O único lamento possível para os que defendem a liberdade é que não tenha existido um funcionário público, descontente com os absurdos totalitários dos impostos, para mudar o cadastro de todo o IPTU de São Paulo para “imóveis isentos” nem um vereador decente propondo corte de gastos e o fim da retenção do ISS na cidade, promovendo um crescimento real para toda população.

 

Publicado originalmente em Libertários.

Carta aberta sobre o IPTU aos Vereadores de São Paulo

Caro vereador,

O senhor votou a favor do aumento do IPTU. Venho, como cidadão de São Paulo, exercer a minha função de povo. A função do povo não é aceitar ou acatar às decisões tirânicas dos representantes eleitos, mas apontar a sua discordância para com o absurdo da decisão.

Monarcas foram depostos e mortos por aumentarem impostos. O senhor segue o mesmo rumo. Talvez o senhor não morra guilhotinado, enforcado, envenenado ou com uma espada atravessando seu pescoço ou ventre, mas há outras formas de matar políticos.

O seu nome estará sempre vinculado a este ato absurdo. Sua vida enquanto vereador estará sempre vigiada. Vigiarei suas contas, seus cargos, seus caminhos, seus emails e telefones. Enquanto povo, lutarei para que sua estadia no poder termine neste mandato. E que toda a sua descendência seja desmoralizada publicamente por terem o sangue tirânico que o levou a votar a favor do aumento do IPTU.

Este é o meu repúdio à sua pessoa.

A sua gangue conseguiu mais uma vez aumentar o roubo aos cidadãos honestos, mas não será fácil para nenhum de vocês. O povo acordou e pede a cabeça dos consumidores de impostos.
Deste pagador forçado de impostos,

Filipe Celeti
Filósofo, professor e poeta.

Lançamento: Bar do Escritor – Tomo IV

Já está em mãos a nova antologia literária do Bar do Escritor. Participo desta antologia também com poemas. É gratificante estar nesta quarta publicação, tendo participado da primeira antologia, Anarquia Brasileira de Leitras (2009), e da terceira antologia, Terceira Dose (2012).

Nesta edição, mantenho o estilo minimalista, com significados reticentes e poemas curtos.

É ótimo ter os amigos barnasianos Cristiano Deveras, Emerson Wiskow, Fillipe Jardim, Giovani Iemini, Glauber Vieira Ferreira, Larissa Marques, Magmah, Maria Júlia Pontes, Pablo Treuffar, Paulinho Dhi Andrade, Renato Saldanha Lima, Roberto Menezes, Rodrigo Domit, Rosa Cardoso, Ruth Cassab Brolio, Ruy Villani e Wilson R. compartilhando com outros autores as 228 páginas deste livro.

Sobre o Bar do Escritor

O Bar do Escritor é uma comunidade de autores e entusiastas da literatura que age coletivamente em busca da promoção literária e da difusão do pensamento crítico e libertário.

Nesta quarta antologia de contos, crônicas e poemas, lançada pelo grupo, reuniram-se 45 autores do País, para escrever sobre o que mais apreciam, um bom bate-papo num botequim. São textos que abrangem diversos sentimentos, desde o mais formal ao mais lisérgico.

Entre os autores reunidos, destacam-se membros de academias de letras, jornalistas, compositores, vencedores de concursos literários, cartunistas, juízes de direito, filósofos, membros antigos do Bar do Escritor (BdE), algumas comunidades de literatura, incluindo vagabundos, malucos, os malditos, os amantes, os amadores, os amigos, entre outros escritores de toda espécie.

Wilson R., candidato à eleição na Academia Brasileira de Letras, no prefácio, considera o BdE o movimento literário mais expressivo da atualidade, exatamente pela íntima ligação entre o mundo virtual contemporâneo e o real, concretizado pelos seus integrantes nas diversas obras publicadas, nos blogs de literatura e nos encontros nacionais do grupo em Paraty, Rio de Janeiro, por ocasião da Festa Literária Internacional (FLIP).

Educação: uma questão política e individual

Como e quando surgiu a educação como nós hoje conhecemos? Por que os governos em geral tem uma tendência tão forte em defender a educação como um pilar essencial? Será que tudo isso é uma mera boa vontade dos nossos governantes ou será que há algo por trás disso tudo?

Nesta aula online para o Ciclo de Formação do Estudantes Pela Liberdade (EPL) falei sobre como surgiu a educação no modelo atual e também como ela vem afetando a formação de novos indivíduos. Abordei também a importância de compreender as tendências pedagógicas para pensar sobre qual é o tipo de educação desejável.

Assista!

 

Os pactos da presidente Dilma

Na tarde de segunda-feira, 24 de Junho, a presidente Dilma sugeriu a adoção de cinco pactos. A proposta é resultado das semanas de manifestações que ocorreram em todo o país. As áreas certamente necessitam de melhoras, mas as soluções apresentadas podem não atacar as raízes dos problemas. Por este motivo, é preciso comentar os pactos propostos e apresentar soluções diferentes.

1. Responsabilidade fiscal e controle da inflação

Quando o governo federal fala de inflação, refere-se às suas consequências e não às suas causas. O resultado visível da inflação é a alta de preços, que ocasiona uma diminuição do consumo. Entretanto, caso um verdadeiro pacto pelo controle da inflação seja o desejo, é preciso que se combata a política monetária do Bacen. A impressão descontrolada de moeda para financiar os gastos públicos precisa ser cessada e os gastos públicos drasticamente diminuídos.

2. Plebiscito para formação de uma constituinte sobre reforma política
Reformas políticas são implementadas com emendas constitucionais, como apontou a OAB em encontro com a presidente. Uma constituinte teria o poder de mexer nas cláusulas pétreas da constituição, significando um perigo ao Estado de Direito.

3. Saúde
Num país sem infraestrutura certamente que há pouco incentivo para que os formados em medicina migrem para áreas remotas. O governo esquece que não basta um salário alto é preciso que exista qualidade de vida. Além disto, é preciso mudar a mentalidade cultural que vê o ganhar dinheiro com o serviço médico como uma imoralidade. Há outras discussões importantes como a exclusividade da classe médica para a realização de atividades. A reserva de mercado no setor e as dificuldades trabalhistas marginalizam profissionais com outras formações e estrangeiros.

4. Transporte
Não basta retirar impostos de combustível e injetar bilhões em obras de mobilidade urbana. Há um modelo de gestão nos transportes que é ineficaz, o modelo de concessão. Enquanto empresas receberem subsídios e autorização para o cartel de prestação de serviços, o salto de qualidade não ocorrerá. A qualidade aumenta e os preços diminuem apenas quando há real concorrência. Proibições na prestação do serviço de transporte e a grande regulamentação de rotas, frotas, horários e preços, impedem a existência de alternativas.

5. Educação
É óbvio que mais dinheiro para um setor é mais chance de desenvolvimento. É preciso, além disto, uma mudança de postura por parte dos docentes. Uma educação para a cidadania, abstrata de significado, precisa dar lugar a uma educação de conteúdos. A alfabetização na idade certa ocorrerá quando os docentes tomarem para si a responsabilidade de alfabetizar. O dinheiro para a educação pode pagar infraestrutura, salários e recursos pedagógicos, mas comprar qualidade é algo que apenas uma formação sólida do professor e uma gestão meritocrática pode realizar.

 

Publicado inicialmente em: Libertários

A escola é incompatível com a liberdade

A obrigatoriedade educacional é incompatível com a liberdade. Crianças e adolescentes são confinados diariamente num ambiente que pode realizar de tudo, menos a construção da autonomia e o fortalecimento das características, disposições e aspirações individuais.

A prova de filosofia abaixo, sobre o tema da liberdade, permitiu aos alunos uma reflexão sobre a questão. Problemas didáticos à parte, a nota zero que tiraram é um reflexo de uma educação que se pensa séria e comprometida quando atua de modo a ter aversão aos que pensam fora da caixa ou contrariam sua suposta seriedade.

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